Vidas Secas
Graciliano Ramos
 
OBRAS DE GRACILIANO RAMOS
CAETS
SO BERNARDO 
ANGSTIA 
VIDAS SECAS 
INFNCIA 
INSNIA
MEMRIAS DO CRCERE 
VIAGEM
LINHAS TORTAS 
VIVENTES DAS ALAGOAS 
ALEXANDRE E OUTROS HERIS
TRADUES

CAETS
edio portuguesa (Lisboa)

edio portuguesa, inglesa, finlandesa, hngara, alem (5 reedies), 
holandesa

edio portuguesa, italiana (2 reedies) alem, inglesa (2 reedies)
espanhola

edio portuguesa (2 reedies) inglesa, francesa, russa, chinesa, japonesa, tcheca, espanhola (cubana, uruguaia e argentina), polonesa, 
hngara, rumens, blgara, holandesa, italiana (2 reedies), espanhola (Madrid)

SO BERNARDO 
ANGSTIA 
VIDAS SECAS
INFNCIA	edio portuguesa, francesa, inglesa
espanhola
MEMRIAS DO CRCERE

ALEXANDRE E OUTROS HERIS

INSNIA
edio portuguesa
edio russa
edio portuguesa
EDITORA RECORD
 
VIDAS SECAS 
45 EDIO

Posfcio 
LVARO LINS

Ilustraes
ALDEMIR MARTINS

Capa
FLORIANO TEIXEIRA

FICHA CATALOGRFICA		
(Preparada pelo Centro de Catalogao-na-fonte,		VIDAS SECAS	
Cmara Brasileira do Livro, SP)			


Ramos, Graciliano, 1892-1953.		
R143vi	Vidas secas; posfcio de lvaro Lins, ilustraes de Aldemir			
Martins. 454 ed. Rio, So Paulo, Record, 1980			
156 p. ilust.		
I. Romance brasileiro I. Lins, Alvaro, 1912-1970.		
II. Martins, Aldemir, 1922 - ilust. III. Ttulo.		
72-0241	CDD-869.935		
ndices para catlogo sistemtico			
1. Romances: Sculo 20: Literatura brasileira				
869.935				
2. Sculo 20: Romances: Literatura Brasileira			
869.935			
Direitos desta edio:		
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S. A.			
Rua Argentina 171 - 20921 Rio de Janeiro, RJ			
Rua Jos Antnio Coelho, 801 - Tel. 549-8333 - So Paulo, SP			
Impresso no Brasil

NDICE
  Mudana 9
  Fabiano 17
  Cadeia 26
  Sinha Vitria 	39
  O menino mais novo	47
  O menino mais velho	54
  Inverno 63
  Festa  71
  Baleia 85
  Contas 92
  O soldado amarelo 99		
  O mundo coberto de penas	108
  Fuga 116
 
POSFCIO DE LVARO LINS	127

Valores e Misrias das Vidas Secas - lvaro Lins	127
 

  Mudana

  NA PLANCIE avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem trs lguas. 
  Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, atravs dos galhos pelados da catinga rala.
  Arrastaram-se para l, devagar, Sinha Vitria com o filho mais novo escanchado no quarto e o ba de folha na cabea, Fabiano sombrio, cambaio, o ai a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturo, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrs.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho ps-se a chorar, sentou-se no cho.
  - Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.
No obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto no acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
  A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas.
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  O vo negro dos urubus fazia crculos altos em redor de bichos moribundos.
- Anda, excomungado.
  O pirralho no se mexeu, e Fabiano desejou mat-lo. Tinha o corao grosso, queria responsabilizar algum pela sua desgraa. A seca aparecia-lhe como um fato necessrio - e a obstinao da criana irritava-o. Certamente esse obstculo mido no era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, no sabia onde.
  Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava 
os ps.
  Pelo esprito atribulado do sertanejo passou 
a idia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitria estirou o beio indicando vagamente uma direo e afirmou com alguns sons 
guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturo, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os 
joelhos encostados no estmago, frio como um defunto. A a clera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossvel abandonar o anjinho aos bichos 
do mato. Entregou a espingarda a Sinha Vitria, ps o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caam sobre o peito, moles, 
finos como cambitos. Sinha Vitria aprovou esse arranjo, lanou de novo a interjeio gutural, designou os juazeiros invisveis.
  E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silencio grande.
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  Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas  mostra, corria ofegando, a lngua fora da boca. 
E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam.
  Ainda na vspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam descansado, a beira de uma poa: a fome apertara demais os retirantes e por ali no existia sinal de comida. Baleia jantara os 
ps, a cabea, os ossos do amigo, e no guardava lembrana disto. Agora, enquanto parava, dirigia as pupilas brilhantes aos objetos familiares, estranhava no ver sobre o ba de folha a gaiola pequena onde a ave se equilibrava mal. Fabiano tambm s vezes sentia falta dela, mas logo a 
recordao chegava. Tinha andado a procurar razes,  toa: o resto da farinha acabara, no se ouvia um berro de rs perdida na catinga. Sinha Vitria, queimando o assento no cho, as mos cruzadas segurando os joelhos ossudos, pensava em acontecimentos antigos que no se relacionavam: festas de casamento, vaquejadas, novenas, tudo numa confuso. Despertara-a um grito spero, vira de perto a realidade e o papagaio, que andava furioso, com os ps apalhetados, numa
atitude ridcula. Resolvera de supeto aproveit-lo como alimento e justificara-se declarando a si mesma que ele era mudo e intil. No podia deixar de ser mudo.. Ordinariamente a famlia falava pouco. E depois daquele desastre viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a cachorra.
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  As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer, Fabiano aligeirou o passo, esqueceu a fome, a canseira e os ferimentos. As alpercatas dele estavam gastas nos saltos, e a embira tinha-lhe aberto entre os dedos rachaduras muito dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos, gretavam-se e sangravam.
Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a esperana de achar comida, sentiu desejo de cantar. A voz saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para no estragar fora.
  Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira, chegaram aos juazeiros. Fazia tempo que no viam sombra. Sinha Vitria acomodou os filhos, que arriaram como trouxas, cobriu-os com molambos. O menino mais velho, passada a vertigem que o derrubara, encolhido sobre folhas secas, a cabea encostada a uma raiz, adormecia, acordava. E quando abria os olhos, distinguia vagamente um monte prximo, algumas pedras, um carro de bois. A cachorra Baleia foi enroscar-se junto dele.
  Estavam no ptio de uma fazenda sem vida 
  O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e tambm deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente o gado se 
finara e os moradores tinham fugido.
  Fabiano procurou em vo perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa, bateu, tentou forar a porta. Encontrando resistncia, penetrou num cercadinho cheio de plantas mortas, rodeou a tapera, alcanou o terreiro do fundo, viu um 
barreiro vazio, um bosque de catingueiras murchas, um p de turco e o prolongamento da cerca do curral. Trepou-se no mouro do canto, examinou
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a catinga, onde avultavam as ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou a porta da cozinha. Voltou desanimado, ficou um instante no copiar, fazendo teno de hospedar ali a famlia. Mas chegando aos juazeiros, encontrou 
os meninos adormecidos e no quis acord-los. 
  Foi apanhar gravetos, trouxe do chiqueiro das cabras uma braada de madeira meio roda pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira.
  Nesse ponto Baleia arrebitou as orelhas, arregaou as ventas, sentiu cheiro de pres, farejou um minuto, localizou-os no morro prximo e saiu 
correndo.
  Fabiano seguiu-a com a vista e espantou-se uma sombra passava por cima do monte. Tocou o brao da mulher, apontou o cu, ficaram os dois 
algum tempo agentando a claridade do sol. 
  Enxugaram as lgrimas, foram agachar-se perto dos filhos, suspirando, conservaram-se encolhidos, temendo que a nuvem se tivesse desfeito, vencida pelo azul terrvel, aquele azul que deslumbrava e endoidecia a gente.
Entrava dia e saa dia. As noites cobriam a terra de chofre. A tampa anilada baixava, escurecia, quebrada apenas pelas vermelhides do poente.
  Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraas e os seus pavores. O corao de Fabiano bateu junto do corao de Sinha Vitria, um abrao cansado aproximou os farrapos que os cobriam.
Resistiram a fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem nimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperana que os alentava.
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  Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um pre. Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as plpebras, afastando pedaos de sonho. Sinha Vitria beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensangentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo.
Aquilo era caa bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo. E Fabiano queria viver. Olhou o cu com resoluo. A nuvem tinha crescido, agora cobria o morro inteiro. Fabiano pisou com segurana, esquecendo as rachaduras' que lhe estragavam os dedos e os calcanhares.
  Sinha Vitria remexeu no ba, os meninos foram quebrar uma haste de alecrim para fazer um espeto. Baleia, o ouvido atento, o traseiro em repouso e as pernas da frente erguidas, vigiava, aguardando a parte que lhe iria tocar, provavelmente os ossos do bicho e talvez o couro.
  Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no bebedouro dos animais um pouco de lama. Cavou a areia com as unhas, esperou que a gua marejasse e, debruando-se no cho, bebeu muito. Saciado, caiu de 
papo para cima, olhando as estrelas, que vinham nascendo. Uma, duas, trs, quatro, havia muitas estrelas, havia mais de cinco estrelas no cu. O 
poente cobria-se de cirros - e uma alegria doida enchia o corao de Fabiano.
Pensou na famlia, sentiu fome. Caminhando, movia-se como uma coisa, para bem dizer no se diferenava muito da bolandeira de seu Toms. Agora, deitado, apertava a barriga e batia os dentes. Que fim teria levado a bolandeira de seu Toms?
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  Olhou o cu de novo. Os cirros acumulavam-se, a lua surgiu, grande e branca. Certamente ia chover.
  Seu Toms fugira tambm, com a seca, a bolandeira estava parada. E ele, Fabiano, era como a bolandeira. No sabia porqu, mas era. Uma, duas, trs, havia mais de cinco estrelas no cu. 
  A lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o 
vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a . solido. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinha Vitria vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde.
  Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam l em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do pre morto. 
Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para no derramar a gua salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitao nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreio de garranchos e 
folhas secas.
  Chegou. Ps a cuia no cho, escorou-a com pedras, matou a sede da famlia. Em seguida acocorou-se, remexeu o ai, tirou o fuzil, acendeu as razes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois o pre torcia-se e chiava no espeto de alecrim.
  Eram todos felizes. Sinha Vitria vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de sinh
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  Vitria remoaria, as ndegas bambas de Sinha Vitria engrossariam, a roupa encarnada de Sinha Vitria provocaria a inveja das outras caboclas.
  A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, trs, agora havia poucas estrelas no cu. Ali perto a nuvem escurecia o	morro.
  A fazenda renasceria - e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono daquele mundo.
  Os troos minguados ajuntavam-se no cho: a espingarda de pederneira, o ai, a cuia de gua o ba de folha pintada. A fogueira estalava. O pre chiava em cima das brasas.
  Uma ressurreio. As cores da sade voltariam a cara triste de Sinha Vitria. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. 
Chocalhos tilintariam pelos arredores. A catinga ficaria verde.
Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como no podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com pacincia a hora de mastigar os ossos.
Depois iria dormir.
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  Fabiano
  FABIANO curou no rasto a bicheira da novilha raposa. Levava no ai um frasco de creolina, e se houvesse achado o animal, teria feito o curativo ordinrio. No o encontrou, mas sups distinguir as pisadas dele na areia, baixou-se, cruzou dois gravetos no cho e rezou. Se o bicho no estivesse morto, voltaria para o curral, que a orao era forte.
  Cumprida a obrigao, Fabiano levantou-se com a conscincia tranqila e marchou para casa. Chegou-se a beira do rio. A areia fofa cansava-o, 
mas ali, na lama seca, as alpercatas dele faziam chape-chape, os badalos dos chocalhos que lhe pesavam no ombro, pendurados em correias, batiam surdos. A cabea inclinada, o espinhao curvo, agitava os braos para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o av e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mos. E os filhos j comeavam a reproduzir o gesto hereditrio.
  Chape-chape. Os trs pares de alpercatas batiam na lama rachada, seca e branca por cima, preta e mole por baixo. A lama da beira do rio, calcada pelas alpercatas, balanava.
  A cachorra Baleia corria na frente, o focinho arregaado, procurando na catinga a novilha raposa.
  Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a famlia 
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  morrendo de fome, comendo razes. Cara no fim do ptio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado  camarinha escura, pareciam ratos - e a lembrana dos sofrimentos passados esmorecera.
  Pisou com firmeza no cho gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do ai um pedao de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, ps-se a fumar regalado.
  - Fabiano, voc  um homem, exclamou em voz alta.
  Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar s. E, pensando bem, ele no era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presena dos brancos e julgava-se 
cabra.
  Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, algum tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: 
  - Voc  um bicho, Fabiano.
  Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.
  Chegara naquela situao medonha - e ali estava, forte, at gordo, fumando o seu cigarro de palha.
  - Um bicho, Fabiano.
  Era. Apossara-se da casa porque no tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucun. Viera a trovoada.


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  E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus prstimos, resmungando, coando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patro aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.
  Agora Fabiano era vaqueiro, e ningum o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara razes, estava plantado. Olhou as quips, os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso, era como 
as catingueiras e as baranas. Ele, Sinha Vitria, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados  terra.
  Chape-chape. As alpercatas batiam no cho rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braos moviam-se desengonados. Parecia um macaco.
  Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo,  toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hspede. Sim senhor, hspede que demorava demais, tomava amizade  casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.
  Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carcia, enterneceu-se
  - Voc  um bicho, Baleia.
  Vivia longe dos homens, s se dava bem com animais. Os seus ps duros quebravam espinhos e no sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilbica e gutural, que o companheiro entendia. A p, no se
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  agentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. As vezes utilizava nas relaes com as pessoas a mesma lngua com que 
se dirigia aos brutos - exclamaes, onomatopias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vo, mas sabia que elas eram inteis e talvez perigosas.
  Uma das crianas aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetio da pergunta. 
  No percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que no era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado:
  - Esses capetas tm idias ...
  No completou o pensamento, mas achou que aquilo estava errado. Tentou recordar o seu tempo de infncia, viu-se mido, enfezado, a camiSinha encardida e rota acompanhando o pai no servio do campo, interrogando-o debalde. Chamou 
os filhos, falou de coisas imediatas, procurou interess-los. Bateu palmas
  - Ec! ec!
  A cachorra Baleia saiu correndo entre os alastrados e quips, farejando a novilha raposa. Depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano consolou-a, afagou-a.  Queria apenas dar um ensinamento aos meninos. Era bom eles saberem que deviam proceder assim.
  Alargou o passo, deixou a lama seca da beira do rio, chegou  ladeira que levava ao ptio. Ia inquieto, uma sombra no olho azulado. Era como
se na sua vida houvesse aparecido um buraco. 
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Necessitava falar com a mulher, afastar aquela perturbao, encher os cestos, dar pedaos de mandacaru ao gado. Felizmente a novilha estava curada com reza. Se morresse, no seria por culpa dele.
  - Eco! ec!
  Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianas divertiram-se, animaram-se, e o esprito de Fabiano se destoldou. Aquilo  que estava certo. Baleia no podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exerccio fcil - bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal. A cachorra tornou a voltar, a lngua pendurada, arquejando. Fabiano tomou a frente do grupo, satisfeito com a lio, pensando na gua que ia montar, uma gua que no fora ferrada nem levara sela. Haveria na catinga um barulho medonho.
  Agora queria entender-se com Sinha Vitria a respeito da educao dos pequenos. Certamente ela no era culpada. Entregue aos arranjos da casa, regando os craveiros e as panelas de losna, descendo ao bebedouro com o pote vazio e regressando com o pote cheio, deixava os filhos soltos no barreiro, enlameados como porcos. E eles estavam perguntadores, insuportveis. Fabiano dava-se bem com a ignorncia. Tinha o direito de saber? Tinha? No tinha.
  - Est a.
  Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.
  Lembrou-se de seu Toms da bolandeira. Dos homens do serto o mais arrasado era seu Toms da bolandeira. Porqu? S se era porque lia demais.
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  Ele, Fabiano, muitas vezes dissera: - "seu Toms, vossemec no regula. Para que tanto papel? Quando a desgraa chegar, seu Toms se estrepa, igualzinho aos outros." Pois viera a seca, o pobre do velho, to bom e to lido, perdera 
tudo, andava por a, mole. Talvez j tivesse dado o couro s varas, que pessoa como ele no podia agentar vero puxado.
  Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando seu Toms da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda, montado num cavalo cego, p aqui, p acol, Fabiano e outros semelhantes descobriam-se. E seu Toms respondia tocando na beira do chapu de palha, virava-se para um lado e para outro, abrindo muito as pernas caladas em botas pretas com remendos vermelhos.
  Em horas de maluqueira Fabiano desejava imit-lo: dizia palavras difceis, truncando tudo, o convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele no tinha nascido para falar certo.
  Seu Toms da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas no sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser corts. At o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! 
Quem disse que no obedeciam?
  Os outros brancos eram diferentes. O patro atual, por exemplo, berrava sem preciso. Quase nunca vinha  fazenda, s botava os ps nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o servio ia bem, mas o proprietrio descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, o Fabiano ouvia as descomposturas com o chapu 
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  de couro debaixo do brao, desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava no emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo s queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dvida?
  Fabiano, uma coisa da fazenda, um traste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fbrica, perneiras, gibo, guarda-peito e sapates de couro cru, mas ao sair largaria tudo ao vaqueiro que o substitusse.
  Sinha Vitria desejava possuir uma cama igual  de seu Toms da bolandeira. Doidice. No dizia nada para no contrari-la, mas sabia que 
era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. Qualquer dia o patro os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de
um pau.
  Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, no ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo - anos bons misturados com anos ruins. A desgraa estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. 
  Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas - ela se avizinhando a galope, com vontade de mat-lo.
  Virou o rosto para fugir  curiosidade dos filhos, benzeu-se. No queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente 
importante como seu Toms da bolandeira. Era 
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uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com  ela, sentir-se com fora para brigar com ela e venc-la. No queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabea levantada, seria homem.

  - Um homem, Fabiano.
  Coou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. No, provavelmente no seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rs na fazenda alheia.
  Mas depois? Fabiano tinha a certeza de que no se acabaria to cedo. Passara dias sem comer, apertando o cinturo, encolhendo o estmago. Viveria muitos anos, viveria um sculo,. Mas se morresse de fome ou nas pontas de um touro, 
deixaria filhos robustos, que gerariam outros filhos.
  Tudo seco em redor. E o patro era seco tambm, arreliado, exigente e ladro, espinhoso como um p de mandacaru.
  Indispensvel os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se no calejassem, teriam o fim de seu Toms da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto,livro, tanto jornal? Morrera por causa do, estmago doente e das pernas fracas.
  Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito. .. Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? No sabia. Seu Toms da bolandeira  que devia ter lido isso. Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos.
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  Agora tinham obrigao de comportar-se como gente da laia deles.
  Alcanou o ptio, enxergou a casa baixa e escura, de telhas pretas, deixou atrs os juazeiros, as pedras onde se jogavam cobras mortas, o carro 
de bois. As alpercatas dos pequenos batiam no cho branco e liso. A cachorra Baleia trotava arquejando, a boca aberta.
  Aquela hora Sinha Vitria devia estar na cozinha, acocorada junto  trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, preparando a janta. Fabiano sentiu vontade de comer. Depois da comida, falaria com Sinha Vitria a respeito da educao dos meninos.
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  Cadeia
  FABIANO tinha ido  feira da cidade comprar mantimentos. Precisava sal, farinha, feijo e rapaduras. Sinha Vitria pedira alm disso uma garrafa de querosene e um corte de chita vermelha. Mas o querosene de seu Incio estava misturado com gua, e a chita da amostra era cara demais.
  Fabiano percorreu as lojas, escolhendo o pano regateando um tosto em cvado, receoso de ser enganado. Andava irresoluto, uma longa desconfiana dava-lhe gestos oblquos. A tarde puxou o dinheiro, meio tentado, e logo se arrependeu, certo de que todos os caixeiros furtavam no preo e na medida: amarrou as notas na ponta do leno, meteu-as na algibeira, dirigiu-se  bodega de seu Incio, onde guardara os picus.
  A certificou-se novamente de que o querosene estava batizado e decidiu beber uma pinga, pois sentia calor. Seu Incio trouxe a garrafa de aguardente. Fabiano virou o copo de um trago, cuspiu, limpou os beios  manga, contraiu o 
rosto. Ia jurar que a cachaa tinha gua. Por que seria que seu Incio botava gua em tudo? perguntou mentalmente. Animou-se e interrogou 
o bodegueiro:
  - Por que  que vossemec bota gua em tudo?
  Seu Incio fingiu no ouvir. E Fabiano foi sentar-se na calada, resolvido a conversar. O vocabulrio dele era pequeno, mas em horas de 
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comunicabilidade enriquecia-se com algumas expresses de seu Toms da bolandeira. Pobre de seu Toms. Um homem to direito sumir-se como cambembe, andar por este mundo de trouxa nas costas. Seu Toms era pessoa de considerao e votava. Quem diria?
  Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano:
  - Como , camarada? Vamos jogar um trinta-e-um l dentro?
  Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras de seu Toms da bolandeira:
  - Isto . Vamos e no vamos. Quer dizer Enfim, contanto, etc.  conforme.
Levantou-se e caminhou atrs do amarelo, que era autoridade e mandava. Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substncia, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.
  Atravessaram a bodega, a corredor, desembocaram numa sala onde vrios tipos jogavam cartas em cima de uma esteira.
  - Desafasta, ordenou o polcia. Aqui tem gente.
  Os jogadores apertaram-se, os dois homens sentaram-se, o soldado amarelo pegou o baralho. Mas com tanta infelicidade que em pouco tempo se enrascou. Fabiano encalacrou-se tambm. Sinha Vitria ia danar-se, e com razo.
  - Bem feito.
  Ergueu-se furioso, saiu da sala, trombudo. 
  - Espera a, paisano, gritou o amarelo.
  Fabiano, as orelhas ardendo, no se virou. Foi pedir a seu Incio os troos que ele havia
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guardado, vestiu o gibo, passou as correias dos alforjes no ombro, ganhou a rua.
  Debaixo do jatob do quadro taramelou com Sinha Rita louceira, sem se atrever a voltar para casa. Que desculpa iria apresentar a Sinha Vitria? Forjava uma explicao difcil. Perdera o embrulho da fazenda, pagara na botica uma garrafada para Sinha Rita louceira. Atrapalhava-se tinha imaginao fraca e no sabia mentir. Nas invenes com que pretendia justificar-se a figura 
de Sinha Rita aparecia sempre, e isto o desgostava. Arruinaria uma histria sem ela, diria que haviam furtado o cobre da chita. Pois no era? Os 
parceiros o tinham pelado no trinta-e-um. Mas no devia mencionar o jogo. Contaria simplesmente que o leno das notas ficara no bolso do gibo 
e levara sumio. Falaria assim: - "Comprei os mantimentos. Botei o gibo e os alforjes na bodega de seu Incio. Encontrei um soldado amarelo" 
No, no encontrara ningum. Atrapalhava-se de novo. Sentia desejo de referir-se ao soldado, um conhecido velho, amigo de infncia. A mulher se incharia com a notcia. Talvez no se inchasse. Era atilada, notaria a pabulagem. Pois estava 
acabado. O dinheiro fugira do bolso do gibo, na venda de seu Incio. Natural.
  Repetia que era natural quando algum lhe deu um empurro, atirou-o contra o jatob. A feira se desmanchava; escurecia; o homem da iluminao, trepando numa escada, acendia os lampies. A estrela papa-ceia branqueou por cima da 
torre da igreja; o doutor juiz de direito foi brilhar na porta da farmcia; o cobrador da prefeitura passou coxeando, com tales de recibos debaixo do brao; a carroa de lixo rolou na praa
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recolhendo cascas de frutas; seu vigrio saiu de casa e abriu o guarda-chuva por causa do sereno; Sinha Rita louceira retirou-se.
  Fabiano estremeceu. Chegaria a fazenda noite fechada. Entretido com o diabo do jogo, tonto de aguardente, deixara o tempo correr. E no levava o querosene, ia-se alumiar durante a semana com pedaos de facheiro. Aprumou-se, disposto a viajar. Outro empurro desequilibrou-o. Voltou-se e viu ali perto o soldado amarelo, que o desafiava, a cara enferrujada, uma ruga na testa. Mexeu-se para sacudir o chapu de couro nas ventas do agressor. Com uma pancada certa do chapu de couro, aquele tico de gente ia ao barro. Olhou as coisas e as pessoas em roda e moderou a indignao. Na catinga ele as vezes cantava de galo, mas na rua encolhia-se.
  - Vossemec no tem direito de provocar os que esto quietos.
  - Desafasta, bradou o polcia.
  E insultou Fabiano, porque ele tinha deixado a bodega sem se despedir.
  - Lorota, gaguejou o matuto. Eu tenho culpa de vossemec esbagaar os seus possudos no jogo?
  Engasgou-se. A autoridade rondou por ali um instante, desejosa de puxar questo. No achando pretexto, avizinhou-se e plantou o salto da reina 
em cima da alpercata do vaqueiro.
  - Isso no se faz, moo, protestou Fabiano. Estou quieto. Veja que mole e quente  p de gente.
  O outro continuou a pisar com fora. Fabiano impacientou-se e xingou a me dele. A o amarelo apitou, e em poucos minutos o destacamento da cidade rodeava o jatob.
  - Toca pra frente, berrou o cabo.
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Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusao medonha e no se defendeu.
  - Est certo, disse o cabo. Faa lombo, paisano.
  Fabiano caiu de joelhos, repetidamente uma lmina de faco bateu-lhe no peito, outra nas costas. Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safano que o arremessou para as trevas do crcere. A chave tilintou na fechadura, e Fabiano ergueu-se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto, rosnando
  - Hum! hum!
  Porque tinham feito aquilo? Era o que no podia saber. Pessoa de bons costumes, sim senhor, nunca fora preso. De repente um fuzu sem motivo. Achava-se to perturbado que nem acreditava naquela desgraa. Tinham-lhe cado todos 
em cima, de supeto, como uns condenados. Assim um homem no podia resistir.
  - Bem, bem.
  Passou as mos nas costas e no peito, sentiu-se modo, os olhos azulados brilharam como olhos de gato. Tinham-no realmente surrado e prendido. Mas era um caso to esquisito que instantes depois balanava a cabea, duvidando, apesar das machucaduras.
  Ora, o soldado amarelo ... Sim, havia um amarelo, criatura desgraada que ele, Fabiano, desmancharia com um tabefe. No tinha desmanchado por causa dos homens que mandavam. Cuspiu, com desprezo:
  - Safado, mofino, escarro de gente. Por mor de uma peste daquela, maltratava-se um pai de famlia. Pensou na mulher, nos filhos e
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  31 e 32 figura.

na cachorrinha. Engatinhando, procurou os alforjes, que haviam cado no cho, certificou-se de que os objetos comprados na feira estavam todos ali. Podia ter-se perdido alguma coisa na confuso. Lembrou-se de uma fazenda vista na ltima das lojas que visitara. Bonita, encorpada, larga, vermelha e com ramagens, exatamente o que Sinha Vitria desejava. Encolhendo um tosto em  cvado, por sovinice, acabava o dia daquele jeito. Tornou a mexer nos alforjes. Sinha Vitria devia estar desassossegada com a demora dele. A casa no escuro, os meninos em redor do fogo, a cachorra Baleia vigiando. Com certeza haviam fechado a porta da frente.
  Estirou as pernas, encostou as carnes dodas ao muro. Se lhe tivessem dado tempo, ele teria explicado tudo direitinho. Mas pegado de surpresa, embatucara. Quem no ficaria azuretado com semelhante despropsito? No queria capacitar-se de que a malvadez tivesse sido para ele. Havia engano, provavelmente o amarelo o confundira com outro. No era seno isso.
  Ento porque um sem-vergonha desordeiro se arrelia, bota-se um cabra na cadeia, d-se pancada nele? Sabia perfeitamente que era assim, acostumara-se a todas as violncias, a todas. as injustias. E aos conhecidos que dormiam no tronco e agentavam cip de boi oferecia consolaes: 
  -- "Tenha pacincia. Apanhar do governo no  desfeita."
  Mas agora rangia os dentes, soprava. Merecia castigo?
  - An!
  E, por mais que forcejasse, no se convencia de que o soldado amarelo fosse governo. Governo, 
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coisa distante e perfeita, no podia errar. O soldado amarelo estava ali perto, alm da grade,. era fraco e ruim, jogava na esteira com os matutos e 
provocava-os depois. O governo no devia consentir to grande safadeza.
  Afinal para que serviam os soldados amarelos? Deu um pontap na parede, gritou enfurecido. Para que serviam os soldados amarelos? Os outros presos remexeram-se, o carcereiro chegou  grade, e Fabiano acalmou-se:
  - Bem, bem. No h nada no.
  Havia muitas coisas. Ele no podia explic-las, mas havia. Fossem perguntar a seu Toms da bolandeira, que lia livros e sabia onde tinha as ventas. Seu Toms da bolandeira contaria aquela histria. Ele, Fabiano, um bruto, no contava nada. S queria voltar para junto de Sinha Vitria, deitar-se na cama de varas. Porque vinham bulir com um homem que s queria descansar? Deviam bulir com outros.
  - An!
  Estava tudo errado.
  - An!
  Tinham l coragem? Imaginou o soldado amarelo atirando-se a um cangaceiro na catinga. Tinha graa. No dava um caldo.
  Lembrou-se da casa velha onde morava, da cozinha, da panela que chiava na trempe de pedras. Sinha Vitria punha sal na comida. Abriu os alforjes novamente: a trouxa de sal no se tinha perdido. Bem. Sinha Vitria provava o caldo na quenga de coco. E Fabiano se aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra Baleia, que era como uma pessoa da famlia, sabida como gente. 
Naquela viagem arrastada, em tempo de seca braba,
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quando estavam todos morrendo de fome, a cadelinha tinha trazido para eles um pre. Ia envelhecendo, coitada. Sinha Vitria, inquieta, com certeza fora muitas vezes escutar na porta da frente. O galo batia as asas, os bichos bodejavam no chiqueiro, os chocalhos das vacas tiniam.
  Se no fosse isso ... An! Em que estava pensando? Meteu os olhos pela grade da rua. Chi! que pretume! O lampio da esquina se apagara, provavelmente o homem da escada s botara nele meio quarteiro de querosene. 
  Pobre de Sinha Vitria, cheia de cuidados, na escurido. Os meninos sentados perto do lume, a panela chiando na trempe de pedras, Baleia atenta, o candeeiro de folha pendurado na ponta de uma vara que saa da parede.
  Estava to cansado, to machucado, que ia quase adormecendo no meio daquela desgraa. Havia ali um bbedo tresvariando em voz alta e alguns homens agachados em redor de um fogo que enchia o crcere de fumaa. Discutiam e queixavam-se da lenha molhada.
  Fabiano cochilava, a cabea pesada inclinava-se para o peito e levantava-se. Devia ter comprado o querosene de seu Incio. A mulher e os meninos agentando fumaa nos olhos.
  Acordou sobressaltado. Pois no estava misturando as pessoas, desatinando? Talvez fosse efeito da cachaa. No era: tinha bebido um copo,
tanto assim, quatro dedos. Se lhe dessem tempo, contaria o que se passara.
  Ouviu o falatrio desconexo do bbedo, caiu numa indeciso dolorosa. Ele tambm dizia palavras sem sentido, conversava  toa. Mas irou-se com a comparao, deu marradas na parede. Era 
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bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, no sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Ento mete-se um homem na cadeia porque ele no sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. 
Desentupia o bebedouro, consertava as cercas, curava os animais - aproveitara um casco de fazenda sem valor. Tudo em ordem, podiam ver. 
Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?
  Se no fosse aquilo ... Nem sabia. O fio da idia cresceu, engrossou - e partiu-se. Difcil pensar. Vivia to agarrado aos bichos. .. Nunca vira 
uma escola. Por isso no conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demnio daquela histria entrava-lhe na cabea e saa. Era 
para um cristo endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entend-la. Impossvel, s sabia lidar com bichos.
  Enfim, contanto ... Seu Toms daria informaes. Fossem perguntar a ele. Homem bom, seu Toms da bolandeira, homem aprendido. Cada qual como Deus o fez. Ele, Fabiano, era aquilo mesmo, um bruto.
  O que desejava ... An! Esquecia-se. Agora se recordava da viagem que tinha feito pelo serto a cair de fome. As pernas dos meninos eram finas 
como bilros, Sinha Vitria tropicava debaixo do ba de trens. Na beira do rio haviam comido o papagaio, que no sabia falar. Necessidade.
  Fabiano tambm no sabia falar. As vezes largava nomes arrevesados, por embromao. Via perfeitamente que tudo era besteira. No podia 
arrumar o que tinha no interior. Se pudesse ... Ah! Se pudesse, atacaria os soldados amarelos que espancam as criaturas inofensivas.
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Bateu na cabea, apertou-a. Que faziam aqueles sujeitos acocorados em torno do fogo? Que dizia aquele bbedo que se esgoelava como um doido, gastando flego  toa? Sentiu vontade de gritar, de anunciar muito alto que eles no prestavam para nada. Ouviu uma voz fina. Algum no xadrez das mulheres chorava e arrenegava as pulgas. Rapariga da vida, certamente de porta aberta. Essa tambm no prestava para nada. Fabiano queria berrar para a cidade inteira, afirmar ao doutor juiz de direito, ao delegado, a seu vigrio e aos cobradores da prefeitura que ali dentro ningum prestava para nada. Ele, os homens acocorados, o bbedo, a mulher das pulgas, tudo era uma lstima, s servia para agentar faco. 
  Era o que ele queria dizer.
  E havia tambm aquele fogo-corredor que ia e vinha no esprito dele. Sim, havia aquilo. Como era? Precisava descansar. Estava com a testa doendo, provavelmente em conseqncia de uma pancada de cabo de faco. E doa-lhe. a cabea toda, parecia-lhe que tinha fogo por dentro, parecia-lhe que tinha nos miolos uma panela fervendo.
  Pobre de Sinha Vitria, inquieta e sossegando os meninos. Baleia vigiando, perto da trempe. Se no fossem eles ...
  Agora Fabiano conseguia arranjar as idias. O que o segurava era a famlia. Vivia preso como um novilho amarrado ao mouro, suportando ferro quente. Se no fosse isso, um soldado amarelo no lhe pisava o p no. O que lhe amolecia o 
corpo era a lembrana da mulher e dos filhos. Sem aqueles cambes pesados, no envergaria o espinhao no, sairia dali como ona e faria uma asneira. Carregaria a espingarda e daria um tiro de
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p de pau no soldado amarelo. No. O soldado amarelo era um infeliz que nem merecia um tabefe com as costas da mo. Mataria os donos dele. 
Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam o soldado amarelo. No ficaria um para semente. Era a idia que lhe fervia na cabea. Mas havia a mulher, havia os meninos, havia a cachorrinha.
  Fabiano gritou, assustando o bbedo, os tipos que abanavam o fogo, o carcereiro e a mulher que se queixava das pulgas. Tinha aqueles cambes 
pendurados ao pescoo. Deveria continuar a arrast-los? Sinha Vitria dormia mal na cama de varas. Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patro invisvel, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo.
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Sinha Vitria
  ACOCORADA junto s pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitria soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos ties e cobriu-lhe a cara, a fumaa inundou-lhe os olhos, o rosrio de contas 
brancas e azuis desprendeu-se do cabeo e bateu na panela. Sinha Vitria limpou as lgrimas com as costas das mos, encarquilhou as plpebras, meteu o rosrio no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.
  Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitria aprumou o espinhao e agitou o abano. Uma chuva de fascas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanaes da comida.
  Sentindo a deslocao do ar e a crepitao dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o plo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o cho. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenmeno e desejou expressar a sua admirao  dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas
pernas traseiras, imitando gente. Mas Sinha Vitria no queria saber de elogios.
  - Arreda!
  Deu um pontap na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionrios.
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  Sinha Vitria tinha amanhecido nos seus azeites. Fora de propsito, dissera ao marido umas inconvenincias a respeito da cama de varas. Fabiano, que no esperava semelhante desatino, apenas grunhira: - "Hum! hum!" E amunhecara, porque realmente mulher  bicho difcil de entender, deitara-se na rede e pegara no sono. Sinha Vitria andara para cima e para baixo, procurando em que desabafar. Como achasse tudo em ordem, queixara-se da vida. E agora vingava-se em Baleia, dando-lhe um pontap.
  Avizinhou-se da janela baixa da cozinha, viu os meninos, entretidos no barreiro, sujos de lama, fabricando bois de barro, que secavam ao sol, sob 
o p de turco, e no encontrou motivo para repreend-los. Pensou de novo na cama de varas e mentalmente xingou Fabiano. Dormiam naquilo, tinham-se acostumado, mas seria mais agradvel dormirem numa cama de lastro de couro, como 
outras pessoas.
  Fazia mais de um ano que falava nisso ao marido. Fabiano a princpio concordara com ela, mastigara clculos, tudo errado. Tanto para o 
couro, tanto para a armao. Bem. Poderiam adquirir o mvel necessrio economizando na roupa e no querosene. Sinha Vitria respondera que isso 
era impossvel, porque eles vestiam mal, as crianas andavam nuas, e recolhiam-se todos ao anoitecer. Para bem dizer, no se acendiam candeeiros na casa. Tinham discutido, procurando cortar outras despesas. Como no se entendessem, 
Sinha Vitria aludira, bastante azeda, ao dinheiro gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaa. Ressentido, Fabiano condenara os sapatos de verniz 
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que ela usava nas festas, caros e inteis. Calada naquilo, trpega, mexia-se como um papagaio, era ridcula. Sinha Vitria ofendera-se gravemente com a comparao, e se no fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava, teria despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos, faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeava, manquejava, trepada nos saltos de meio palmo. Devia ser ridcula, mas a opinio de Fabiano entristecera-a muito.   
  Desfeitas essas nuvens, curtidos os dissabores, a cama de novo lhe aparecera no horizonte acanhado.
  Agora pensava nela de mau humor. Julgava-a inatingvel e misturava-a s obrigaes da casa. Foi a sala, passou por baixo do punho da rede onde Fabiano roncava, tirou do carit o cachimbo e uma pele de fumo, saiu para o copiar. O chocalho da vaca laranja tilintou para os lados do rio. Fabiano era capaz de se ter esquecido de curar a vaca laranja. Quis acord-lo e perguntar, mas distraiu-se olhando os xiquexiques e os mandacarus que avultavam na campina.
  Um mormao levantava-se da terra queimada. Estremeceu lembrando-se da seca, o rosto moreno desbotou, os olhos pretos arregalaram-se. Diligenciou afastar a recordao, temendo que ela virasse realidade. Rezou baixinho uma ave-maria, 
j tranqila, a ateno desviada para um buraco que havia na cerca do chiqueiro das cabras. Esfarelou a pele de fumo entre as palmas das mos grossas, encheu o cachimbo de barro, foi consertar a cerca. Voltou, circulou a casa atravessando o cercadinho do oito, entrou na cozinha.
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 -  capaz de Fabiano ter-se esquecido da vaca laranja.
  Agachou-se, atiou o fogo, apanhou uma brasa com a colher, acendeu o cachimbo, ps-se a chupar o canudo de taquari cheio de sarro. Jogou longe uma cusparada, que passou por cima da janela e foi cair no terreiro. Preparou-se para cuspir novamente. Por uma extravagante associao, relacionou esse ato com a lembrana da cama. Se o cuspo alcanasse o terreiro, a cama seria comprada antes do fim do ano. Encheu a boca de saliva, inclinou-se - e no conseguiu o que esperava. Fez vrias tentativas, inutilmente. O resultado foi secar a garganta. Ergueu-se desapontada. Besteira, aquilo no valia.
  Aproximou-se do canto onde o pote se erguia numa forquilha de trs pontas, bebeu um caneco de gua. gua salobra.
  - Iche!
  Isto lhe sugeriu duas imagens quase simultneas, que se confundiram e neutralizaram: panelas e bebedouros. Encostou o fura-bolos  testa, 
indecisa. Em que estava pensando? Olhou o cho, concentrada, procurando recordar-se, viu os ps chatos, largos, os dedos separados. De repente as 
duas idias voltaram: o bebedouro secava, a panela no tinha sido temperada.
  Foi levantar o testo, recebeu na cara vermelha uma baforada de vapor. No  que ia deixando a comida esturrar? Ps gua nela e remexeu-a com a quenga preta de coco. Em seguida provou o caldo. Insosso, nem parecia bia de cristo. Chegou-se ao jirau onde se guardavam cumbucos e mantas de carne, abriu a mochila de sal, tirou um punhado, jogou-o na panela.
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  Agora pensava no bebedouro, onde havia um lquido escuro que bicho enjeitava. S tinha medo da seca.
  Olhou de novo os ps espalmados. Efetivamente no se acostumava a calar sapatos, mas o remoque de Fabiano molestara-a. Ps de papagaio. Isso mesmo, sem dvida, matuto anda assim. Para que fazer vergonha  gente? Arreliava-se com 
a comparao.
  Pobre do papagaio. Viajar com ela, na gaiola que balanava em cima do ba de folha. Gaguejava: - "Meu louro." Era o que sabia dizer. Fora isso, aboiava arremedando Fabiano e latia como Baleia. Coitado. Sinha Vitria nem queria lembrar-se daquilo. Esquecera a vida antiga, era como se tivesse nascido depois que chegara  fazenda. A referncia aos sapatos abrira-lhe uma ferida - 
e a viagem reaparecera. As alpercatas dela tinham sido gastas nas pedras. Cansada, meio morta de fome, carregava o filho mais novo, o ba e a gaiola 
do papagaio. Fabiano era ruim.
  - Mal-agradecido.
  Olhou os ps novamente. Pobre do louro. Na beira do rio matara-o por necessidade, para sustento da famlia. Naquele momento ele estava 
zangado, fitava na cachorrinha as pupilas srias e caminhava aos tombos, como os matutos em dias de festa. Para que Fabiano fora despertar-lhe aquela recordao?
Chegou  porta, olhou as folhas amarelas das catingueiras. Suspirou. Deus no havia de permitir outra desgraa. Agitou a cabea e procurou ocupaes para entreter-se. Tomou a cuia grande, encaminhou-se ao barreiro, encheu de gua o caco das galinhas, endireitou o poleiro. Em seguida foi
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ao quintalzinho regar os craveiros e as panelas de losna. E botou os filhos para dentro de casa, que tinham barro at nas meninas dos olhos. Repreendeu-os:
  - Safadinhos! porcos! sujos como... 
  Deteve-se. Ia dizer que eles estavam sujos como papagaios.
  Os pequenos fugiram, foram enrolar-se na esteira da sala, por baixo do carit, e Sinha Vitria voltou para junto da trempe, reacendeu o cachimbo. A panela chiava; um vento morno e empoeirado sacudia as teias de aranha e as cortinas de 
pucum do teto; Baleia, sob o jirau, coava-se com os dentes e pegava moscas. Ouviam-se distintamente os roncos de Fabiano, compassados, e o ritmo deles influiu nas idias de Sinha Vitria. Fabiano roncava com segurana. Provavelmente no havia perigo, a seca devia estar longe.
  Outra vez Sinha Vitria ps-se a sonhar com a cama de lastro de couro. Mas o sonho se ligava  recordao do papagaio, e foi-lhe preciso um grande esforo para isolar o objeto de seu desejo.
  Tudo ali era estvel, seguro. O sono de Fabiano, o fogo que estalava, o toque dos chocalhos, at o zumbido das moscas davam-lhe sensao de firmeza e repouso. Tinha de passar a vida inteira dormindo em varas? Bem no meio do catre havia 
um n, um calombo grosso na madeira. E ela se encolhia num canto, o marido no outro, no podiam estirar-se no centro. A princpio no se incomodara. Bamba, moda de trabalhos, deitar-se-ia em pregos. Viera, porm, um comeo de prosperidade. Corriam, engordavam. No possuam nada: se retirassem, levariam a roupa, a espingarda, o ba de folha e troas midos. Mas 
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iam vivendo, na graa de Deus, o patro confiava neles - e eram quase felizes. S faltava uma cama. Era o que aperreava Sinha Vitria. Como j no se
estazava em servios pesados, gastava um pedao da noite parafusando. E o costume de encafuar-se ao escurecer no estava certo, que ningum  galinha.
  Nesse ponto as idias de Sinha Vitria seguiram outro caminho, que pouco depois foi desembocar no primeiro. No era que a raposa tinha passado no rabo a galinha pedrs? Logo a pedrs, a mais gorda. Decidiu armar um mundu perto 
do poleiro. Encolerizou-se. A raposa pagaria a galinha pedrs.
  - Ladrona.
  Pouco a pouco a zanga se transferiu. Os roncos de Fabiano eram insuportveis. No havia homem que roncasse tanto. Era bom levantar-se e procurar uma vara para substituir aquele pau amaldioado que no deixava uma pessoa virar-se. 
Porque no tinham removido aquela vara incmoda? Suspirou. No conseguiam tomar resoluo. Pacincia. Era melhor esquecer o n e pensar numa cama igual  de seu Toms da bolandeira. Seu Toms tinha uma cama de verdade, feita pelo 
carpinteiro, um estrado de sucupira alisado a enx, com as juntas abertas a formo, tudo embutido direito, e um couro cru em cima, bem esticado 
e bem pregado. Ali podia um cristo estirar os ossos.
  Se vendesse as galinhas e a marr? Infelizmente a excomungada raposa tinha comido a pedrs, a mais gorda. Precisava dar uma lio  raposa. Ia armar o mundu junto do poleiro e quebrar o espinhao daquela sem-vergonha.
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  Ergueu-se, foi a camarinha procurar qualquer coisa, voltou desanimada e esquecida. Onde tinha a cabea?
  Sentou-se na janela baixa da cozinha, desgostosa. Venderia as galinhas e a marr, deixaria de comprar querosene. Intil consultar Fabiano, que 
sempre se entusiasmava, arrumava projetos. Esfriava logo - e ela franzia a testa, espantada; certa de que o marido se satisfazia com a idia de 
possuir uma cama. Sinha Vitria desejava uma cama real, de couro e sucupira, igual  de seu Toms da bolandeira.
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  O Menino Mais Novo
  A IDIA surgiu-lhe na tarde em que Fabiano botou os arreios na gua alaz e entrou a amans-la. No era propriamente idia: era o desejo vago de realizar qualquer ao notvel que espantasse o irmo e a cachorra Baleia.
  Naquele momento Fabiano lhe causava grande admirao. Metido nos couros, de perneiras, gibo e guarda-peito, era a criatura mais importante do mundo. As rosetas das esporas dele tilintavam no ptio; as abas do chapu, jogado para trs, preso debaixo do queixo pela correia, aumentavam-lhe o rosto queimado, faziam-lhe um crculo enorme em torno da cabea.
  O animal estava selado, os estribos amarrados na garupa, e Sinha Vitria subjugava-o agarrando-lhe os beios. O vaqueiro apertou a cilha e posse a andar em redor, fiscalizando os arranjos, lento. Sem se apressar, livrou-se de um coice : virou o corpo, os cascos da gua passaram-lhe rente ao peito, raspando o gibo. Em seguida Fabiano subiu ao copiar, saltou na sela, a mulher * recuou - e foi um redemoinho na catinga.
  Trepado na porteira do curral, o menino mais novo torcia as mos suadas, estirava-se para ver a nuvem de poeira que toldava as imburanas. Ficou assim uma eternidade, cheio de alegria e medo, at que a gua voltou e comeou a pular furiosamente no ptio, como se tivesse o diabo no corpo. De repente a cilha rebentou e houve um desmoronamento. O pequeno deu um grito, ia
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tombar da porteira. Mas sossegou logo. Fabiano tinha cado em p e recolhia-se banzeiro e cambaio, os arreios no brao. Os estribos, soltos na carreira 
desesperada, batiam um no outro, as rosetas das esporas tiniam.
  Sinha Vitria cachimbava tranqila no banco do copiar, catando lndeas no filho mais velho. No se conformando com semelhante indiferena 
depois da faanha do pai, o menino foi acordar Baleia, que preguiava, a barriguinha vermelha descoberta, sem-vergonha. A cachorra abriu um 
olho, encostou a cabea  pedra de amolar, bocejou e pegou no sono de novo.
  Julgou-a estpida e egosta, deixou-a, indignado, foi puxar a manga do vestido da me, desejando comunicar-se com ela. Sinha Vitria soltou 
uma exclamao de aborrecimento, e, como o pirralho insistisse, deu-lhe um cascudo.
  Retirou-se zangado, encostou-se num esteio do alpendre, achando o mundo todo ruim e insensato. Dirigiu-se ao chiqueiro, onde os bichos bodejavam, fungando, erguendo os focinhos franzidos. Aquilo era to engraado que o egosmo de Baleia
e o mau humor de Sinha Vitria desapareceram. A admirao a Fabiano  que ia ficando maior.
  Esqueceu desentendimentos e grosserias, um entusiasmo verdadeiro encheu-lhe a alma pequenina. Apesar de ter medo do pai, chegou-se a ele devagar, esfregou-se nas perneiras, tocou as abas do gibo. As perneiras, o gibo, o guarda-peito, as 
esporas e o barbicacho do chapu maravilhavam-no.
  Fabiano desviou-o desatento, entrou na sala e foi despojar-se daquela grandeza.
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  O menino deitou-se na esteira, enrolou-se e fechou os olhos. Fabiano era terrvel. No cho, despidos os couros, reduzia-se bastante, mas no lombo da gua alaz era terrvel.
  Dormiu e sonhou. Um p-de-vento cobria de poeira a folhagem das imburanas, Sinha Vitria catava piolhos no filho mais velho. Baleia descansava a cabea na pedra de amolar.
  No dia seguinte essas imagens se varreram completamente. Os juazeiros do fim do ptio estavam escuros, destoavam das outras rvores. Porque seria?
  Aproximou-se do chiqueiro das cabras, viu o bode velho fazendo um barulho feio com as ventas arregaadas, lembrou-se do acontecimento da vspera. Encaminhou-se aos juazeiros, curvado, espiando os rastos da gua alaz.
  A hora do almoo Sinha Vitria repreendeu-o:
  - Este capeta anda leso.
  Ergueu-se, deixou_ a cozinha, foi contemplar as perneiras, o guarda-peito e o gibo pendurados num torno da sala. Da marchou para o chiqueiro - e o projeto nasceu.
  Arredou-se, fez teno de entender-se com algum, mas ignorava o que pretendia dizer. A gua alaz e o bode misturavam-se, ele e o pai misturavam-se tambm.
Rodeou o chiqueiro, mexendo-se como um urubu, arremedando Fabiano.
  A necessidade de consultar o irmo apareceu e desapareceu. O outro iria rir-se, mangar dele, avisar Sinha Vitria. Teve medo do riso e da mangao. Se falasse naquilo, Sinha Vitria lhe puxaria as orelhas.
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  Evidentemente ele no era Fabiano. Mas se fosse? Precisava mostrar que podia ser Fabiano. Conversando, talvez conseguisse explicar-se.
  Ps-se a caminhar, banzeiro, at que o irmo e Baleia levaram as cabras ao bebedouro. A porteira abriu-se, um fartum espalhou-se pelos arredores, os chocalhos soaram, a camiSinha de algodo atravessou o ptio, contornou as pedras onde se atiravam cobras mortas, passou os juazeiros, desceu a ladeira, alcanou a margem do rio.
  Agora as cabras se empurravam metendo os focinhos na gua, os cornos entrechocavam-se. Baleia, atarefada, latia correndo.
  Trepado na ribanceira, o corao aos baques, o menino mais novo esperava que o bode chegasse ao bebedouro. Certamente aquilo era arriscado, mas parecia-lhe que ali em cima tinha crescido e podia virar Fabiano.
  Sentou-se indeciso. O bode ia saltar e derrub-lo. 
  Ergueu-se, afastou-se, quase livre da tentao, viu um bando de periquitos que voava sobre as catingueiras. Desejou possuir um deles, amarr-lo com uma embira, dar-lhe comida. Sumiram-se todos chiando, e o pequeno ficou triste, espiando o cu cheio de nuvens brancas. Algumas eram carneirinhos, mas desmanchavam-se e tornavam-se bichos diferentes. Duas grandes se juntaram - e uma tinha a figura da gua alaz, a outra representava Fabiano.
  Baixou os olhos encandeados, esfregou-os, aproximou-se novamente da ribanceira, distinguiu a massa confusa do rebanho, ouviu as pancadas dos chifres. Se o bode j tivesse bebido, ele experimentaria decepo. Examinou as pernas finas, a 
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camiSinha encardida e rasgada. Enxergara viventes no cu, considerava-se protegido, convencia-se de que foras misteriosas iam ampar-lo. Boiaria 
no ar, como um periquito.
  Ps-se a berrar, imitando as cabras, chamando o irmo e a cachorra. No obtendo resultado, indignou-se. Ia mostrar aos dois uma proeza, voltariam para casa espantados.
  A o bode se avizinhou e meteu o focinho na gua. O menino despenhou-se da ribanceira, escanchou-se no espinhao dele.
  Mergulhou no pelame fofo, escorregou, tentou em vo segurar-se com os calcanhares, foi atirado para a frente, voltou, achou-se montado na garupa 
do animal, que saltava demais e provavelmente se distanciava do bebedouro. Inclinou-se para um lado, mas fortemente sacudido, retomou a posio vertical, entrou a danar desengonado, as pernas abertas, os braos inteis. Outra vez impelido para a frente, deu um salto mortal, passou por cima da cabea do bode, aumentou o rasgo da camisa numa das pontas e estirou-se na areia. Ficou ali estatelado, quietinho, um zunzum nos ouvidos, percebendo vagamente que escapara sem honra da aventura.
  Viu as nuvens que se desmanchavam no cu azul, embirrou com elas. Interessou-se pelo vo dos urubus. Debaixo dos couros, Fabiano andava banzeiro, pesado, direitinho um urubu.
  Sentou-se, apalpou as juntas dodas. Fora sacolejado violentamente, parecia-lhe que os ossos estavam deslocados.
  Olhou com raiva o irmo e a cachorra. Deviam t-lo prevenido. No descobriu neles nenhum sinal de solidariedade : o irmo ria como um doido, Baleia,
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sria, desaprovava tudo aquilo. Achou-se abandonado e mesquinho, exposto a quedas, coices e marradas.
  Ergueu-se, arrastou-se com desnimo at a cerca do bebedouro, encostou-se a ela, o rosto virado para a gua barrenta, o corao esmorecido. 
  Meteu os dedos finos pelo rasgo, coou o peito magro. O tropel das cabras perdeu-se na ladeira, a cachorrinha ladrou longe. Como estariam as nuvens? Provavelmente algumas se transformavam em carneirinhos, outras eram como bichos desconhecidos.
  Lembrou-se de Fabiano e procurou esquec-lo. Com certeza Fabiano e Sinha Vitria iam castig-lo por causa do acidente. Levantou os olhos tmidos. A lua tinha aparecido, engrossava, acompanhada por uma estrelinha quase invisvel. Aquela hora os Periquitos descansavam na vazante, nas touceiras secas de milho. Se possusse um daqueles periquitos, seria feliz.
  Baixou a cabea, tornou a olhar a poa escura 
que o gado esvaziara. Uns riachos midos marejavam na areia como artrias abertas de animais. 
Recordou-se das cabras abatidas a mo de pilo, 
penduradas de cabea para baixo num caibro do 
copiar, sangrando.
  Retirou-se. A humilhao atenuou-se pouco a 
pouco e morreu. Precisava entrar em casa, jantar, 
dormir. E precisava crescer, ficar to grande como 
Fabiano, matar cabras a mo de pilo, trazer uma 
faca de ponta  cintura. Ia crescer, espichar-se 
numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calar sapatos de couro cru.
  Subiu a ladeira, chegou-se a casa devagar, entortando as pernas, banzeiro. Quando fosse homem, 
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caminharia assim, pesado, cambaio, importante, as rosetas das esporas tilintando. Saltaria no lombo de um cavalo brabo e voaria na catinga como p-de-vento, levantando poeira. Ao regressar, apear-se-ia num pulo e andaria no ptio assim torto, de perneiras, gibo, guarda-peito e chapu de couro com barbicacho. O menino mais velho e Baleia ficariam admirados.
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O Menino Mais Velho
  DEU-SE aquilo porque Sinha Vitria no conversou um instante com o menino mais velho. 
  Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando "a linguagem de Sinha Terta, pediu informaes. Sinha Vitria, distrada, aludiu vagamente a certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrio, encolheu os ombros.
  O menino foi  sala interrogar o pai, encontrou-o sentado no cho, com as pernas abertas, desenrolando um meio de sola.
  - Bota o p aqui.
  A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da alpercata : deu um trao com a ponta da faca 
atrs do calcanhar, outro adiante do dedo grande. 
Riscou em seguida a forma do calado e bateu palmas
  - Arreda.
  O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. No obteve resposta, voltou  cozinha, foi pendurar-se  saia da me:
  - Como ?
  Sinha Vitria falou em espetos quentes e fogueiras.
  - A senhora viu?
  A Sinha Vitria se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote.
  O menino saiu indignado com a injustia, 
atravessou o terreiro, escondeu-se debaixo das catingueiras murchas,  beira da lagoa vazia.
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  A cachorra Baleia acompanhou-o naquela hora difcil. Repousava junto  trempe, cochilando no 
calor,  espera de um osso. Provavelmente no o 
receberia, mas acreditava nos ossos, e o torpor que 
a embalava era doce. Mexia-se de longe em longe, 
punha na dona as pupilas negras onde a confiana brilhava. Admitia a existncia de um osso 
grado na panela, e ningum lhe tirava esta certeza, nenhuma inquietao lhe perturbava os desejos moderados. As vezes recebia pontaps sem 
motivo. Os pontaps estavam previstos e no dissipavam a imagem do osso.
  Naquele dia a voz estridente de Sinha Vitria	e o cascudo no menino mais velho arrancaram Baleia da modorra e deram-lhe a suspeita de que as coisas no iam bem. Foi esconder-se num canto, por detrs do pilo, fazendo-se mida entre cumbucos e cestos. Um minuto depois levantou o focinho e procurou orientar-se. O vento morno que soprava da lagoa fixou-lhe a resoluo: esgueirou-se ao longo da parede, transps a janela baixa da cozinha, atravessou o terreiro, passou pelo p de 
turco, topou a camarada, chorando, muito infeliz, 
 sombra das catingueiras. Tentou minorar-lhe o 
padecimento saltando em roda e balanando a 
cauda. No podia sentir dor excessiva. E como 
nunca se impacientava, continuou a pular, ofegante, chamando a ateno do amigo. Afinal convenceu-o de que o procedimento dele era intil.
  O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a 
cabea da cachorra, ps-se a contar-lhe baixinho 
uma histria. Tinha um vocabulrio quase to minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamaes e de gestos,
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  Baleia respondia com o rabo, com a lngua, com 
movimentos fceis de entender.
  Todos o abandonavam, a cadelinha era o nico vivente que lhe mostrava simpatia. Afagou-a com os dedos magros e sujos, e o animal encolheu-se para sentir bem o contato agradvel, experimentou uma sensao como a que lhe dava a cinza do borralho.
  Continuou a acarici-la, aproximou do focinho dela a cara enlameada, olhou bem no fundo os olhos tranqilos.
  Estivera metido no barreiro com o irmo, fazendo bichos de barro, lambuzando-se. Deixara o brinquedo e fora interrogar Sinha Vitria. Um desastre. A culpada era Sinha Terta, que na vspera, depois de curar com reza a espinhela de Fabiano, soltara uma palavra esquisita, chiando, o canudo do cachimbo preso nas gengivas banguelas. Ele tinha querido que a palavra virasse coisa o ficara desapontado quando a me se referira a um lugar ruim, com espetos e fogueiras. Por isso rezingara, esperando que ela fizesse o inferno transformar-se.
  Todos os lugares conhecidos eram bons: o 
chiqueiro das cabras, o curral, o barreiro, o ptio,
o bebedouro - mundo onde existiam seres reais, 
a famlia do vaqueiro e os bichos da fazenda. 
Alm havia uma serra distante e azulada, um 
monte que a cachorra visitava, caando pres, 
veredas quase imperceptveis na catinga, moitas
o capes de mato, impenetrveis bancos de macambira - e a fervilhava uma populao de 
pedras vivas e plantas que procediam como gente. Esses mundos viviam em paz, s vezes desapareciam as fronteiras, habitantes dos dois lados
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  58 - 58 figura.

entendiam-se perfeitamente e auxiliavam-se. Existiam sem dvida em toda a parte foras malficas, mas essas foras eram sempre vencidas. E quando Fabiano amansava brabo, evidentemente uma entidade protetora segurava-o na sela, indicava-lhe os caminhos menos perigosos, livrava-o dos espinhos e dos galhos.
  Nem sempre as relaes entre as criaturas 
haviam sido amveis. Antigamente os homens 
tinham fugido  toa, cansados e famintos. Sinha 
Vitria, com o filho mais novo escanchado no 
quarto, equilibrava o ba de folha na cabea; Fabiano levava no ombro a espingarda de pederneira; Baleia mostrava as costelas atravs do plo 
escasso. Ele, o menino mais velho, cara no cho 
que lhe torrava os ps. Escurecera de repente, os 
xiquexiques e os mandacarus haviam desaparecido. Mal sentia as pancadas que Fabiano lhe dava 
com a bainha da faca de ponta.
  Naquele tempo o mundo era ruim. Mas depois se consertara, para bem dizer as coisas ruins 
no tinham existido. No jirau da cozinha arrumavam-se mantas de carne seca e pedaos de toicinho. A sede no atormentava as pessoas, e  tarde; aberta a porteira, o gado mido corria para o 
bebedouro. Ossos e seixos transformavam-se s 
vezes nos entes que povoavam as moitas, o morro, 
a serra distante e os bancos de macambira.
  Como no sabia falar direito, o menino balbuciava expresses complicadas, repetia as slabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vente, o som dos galhos que rangiam na catinga, roando-se. Agora tinha tido a idia de aprender uma palavra, com certeza importante porque figurava na conversa de Sinha Terta. Ia decor-la e
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transmiti-la ao irmo e  cachorra. Baleia permaneceria indiferente, mas o irmo se admiraria, 
invejoso.
  - Inferno, inferno.
  No acreditava que um nome to bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com Sinha Vitria. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem. Sinha Vitria impunha-se, autoridade visvel e poderosa. Se houvesse feito meno de qualquer autoridade invisvel e mais poderosa, muito bem. Mas tentara convenc-la dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam, pensava at que a zanga delas era a causa nica dos cascudos e puxavantes de orelhas. Esta convico tornava-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes de se dirigir a eles. Animara-se a interrogar Sinha Vitria porque ela estava bem-disposta. Explicou isto  cachorrinha com abundncia de gritos e gestos.
  Baleia detestava expanses violentas: estirou 
as pernas, fechou os olhos e bocejou. Para ela os 
pontaps eram fatos desagradveis e necessrios 
S tinha um meio de evit-los, a fuga. Mas s 
vezes apanhavam-na de surpresa, uma extremidade de alpercata batia-lhe no traseiro - saa latindo, ia esconder-se no mato, com desejo de morder canelas. Incapaz de realizar o desejo, aquietava-se. Efetivamente a exaltao do amigo era 
desarrazoada. Tornou a estirar as pernas e bocejou de novo. Seria bom dormir.
  O menino beijou-lhe o focinho mido, embalou-a. A alma dele ps-se a fazer voltas em redor da serra azulada e dos bancos de macambira. Fabiano dizia que na serra havia tocas de suuaranas. 
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  E nos bancos de macambira, rendilhados de 
espinhos, surgiam cabeas chatas de jararacas.
  Esfregou as mos finas, esgaravatou as unhas 
sujas. Pensou nas figurinhas abandonadas junto 
ao barreiro, mas isto lhe trouxe a recordao da 
palavra infeliz. Diligenciou afastar do esprito 
aquela curiosidade funesta, imaginou que no 
fizera a pergunta, no recebera portanto o cascudo.
Levantou-se. Via a janela da cozinha, o coc 
de Sinha Vitria, e isto lhe dava pensamentos 
maus. Foi sentar-se debaixo de outra rvore, avistou a serra coberta de nuvens. Ao escurecer a 
serra misturava-se com o cu e as estrelas andavam em cima dela. Como era possvel haver estrelas na terra?
  A cadelinha chegou-se aos pulos, cheirou-o, 
lambeu-lhe as mos e acomodou-se.
  Como era possvel haver estrelas na terra?
Entristeceu. Talvez Sinha Vitria dissesse a 
verdade. O inferno devia estar cheio de jararacas 
e suuaranas, e as pessoas que moravam l recebiam cocorotes, puxes de orelhas e pancadas com 
bainha de faca.
  Apesar de ter mudado de lugar, no podia 
livrar-se da presena de Sinha Vitria. Repetiu 
que no havia acontecido nada e tentou pensar 
nas estrelas que se acendiam na serra. Inutilmente. Aquela hora as estrelas estavam apagadas.
Sentiu-se fraco e desamparado, olhou os braos magros, os dedos finos, ps-se a fazer no cho 
desenhos misteriosos. Para que Sinha Vitria tinha dito aquilo?
  Abraou a cachorrinha com uma violncia 
que a descontentou. No gostava de ser apertada,
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preferia saltar e espojar-se. Farejando a panela, 
franzia as ventas e reprovava os modos estranhos 
do amigo. Um osso grande subia e descia no caldo. Esta imagem consoladora no a deixava.
  O menino continuava a abra-la. E Baleia 
encolhia-se para no mago-lo, sofria a carcia 
excessiva. O cheiro dele era bom, mas estava misturado com emanaes que vinham da cozinha. 
Havia ali um osso. Um osso grado, cheio de tutano e com alguma carne.
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  Inverno
  A FAMLIA estava reunida em torno do fogo, Fabiano sentado no pilo cado, Sinha Vitria de pernas cruzadas, as coxas servindo de travesseiros aos filhos. A cachorra Baleia, com o traseiro no cho e o resto do corpo levantado, olhava as brasas que se cobriam de cinza.
  Estava um frio medonho, as goteiras pingavam l fora, o vento sacudia os ramos das catingueiras, e o barulho do rio era como um trovo distante.
  Fabiano esfregou as mos satisfeito e empurrou os ties com a ponta da alpercata. As brasas 
estalaram, a cinza caiu, um crculo de luz espalhou-se em redor da trempe de pedras, clareando 
vagamente os ps do vaqueiro, os joelhos da mulher e os meninos deitados. - De quando em quando estes se mexiam, porque o lume era fraco e apenas aquecia pedaos deles. Outros pedaos esfriavam recebendo o ar que entrava pelas rachaduras das paredes e pelas gretas da janela. Por isso no podiam dormir. Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham preciso de virar-se, chegavam-se  trempe e ouviam a conversa dos pais. No era propriamente conversa, eram frases soltas, espaadas, com repeties e incongruncias. As vezes uma interjeio gutural dava energia ao discurso ambguo. Na verdade nenhum 
deles prestava ateno s palavras do outro: iam 
exibindo as imagens que lhes vinham ao esprito, 
e as imagens sucediam-se, deformavam-se, no
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havia meio de domin-las. Como os recursos de 
expresso eram minguados, tentavam remediar a 
deficincia falando alto.
  Fabiano tornou a esfregar as mos e iniciou 
uma histria bastante confusa, mas como s estavam iluminadas as alpercatas dele, o gesto passou despercebido. O menino mais velho abriu os ouvidos, atento. Se pudesse ver o rosto do pai, compreenderia talvez uma parte da narrao, mas assim no escuro a dificuldade era grande. 
  Levantou-se, foi a um canto da cozinha, trouxe 
de l uma braada de lenha. Sinha Vitria aprovou este ato com um rugido, mas Fabiano condenou a interrupo, achou que o procedimento do filho revelava falta de respeito e estirou o brao 
para castig-lo. O pequeno escapuliu-se, foi enrolar-se na saia da me, que se ps francamente do 
lado dele.
  - Hum! hum! Que brabeza!
  Aquele homem era assim mesmo, tinha o corao perto da goela.
  - Estourado.
  Remexeu as brasas com o cabo da quenga de coco, arrumou entre as pedras achas de angico molhado, procurou acend-las. Fabiano ajudou-a: suspendeu a tagarelice, ps-se de quatro ps e soprou os carves, enchendo muito as bochechas. 
  Uma fumarada invadiu a cozinha, as pessoas tossiram, enxugaram os olhos. Sinha Vitria manejou o abano, e passado um minuto as labaredas espirraram entre as pedras.
  O crculo de luz aumentou, agora as figuras 
surgiam na sombra, vermelhas. Fabiano, visvel 
da barriga para baixo, ia-se tornando indistinto 
da para cima, era um negrume que vagos clares
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cortavam. Desse negrume saiu novamente a parolagem mastigada.
  Fabiano estava de bom humor. Dias antes a 
enchente havia coberto as marcas postas no fim 
da terra de aluvio, alcanava as catingueiras, que 
deviam estar submersas. Certamente s apareciam 
as folhas, a espuma subia, lambendo ribanceiras 
que se desmoronavam.
  Dentro em pouco o despotismo de gua ia acabar, mas Fabiano no pensava no futuro. Por enquanto a inundao crescia, matava bichos, ocupava grotas e vrzeas. Tudo muito bem. E Fabiano esfregava as mos. No havia o perigo da seca imediata, que aterrorizara a famlia durante meses. A catinga amarelecera, avermelhara-se, o gado principiara a emagrecer e horrveis vises de pesadelo tinham agitado o sono das pessoas. De repente um trao ligeiro rasgara o cu para os lados da cabeceira do rio, outros surgiram mais claros, o trovo roncara perto, na escurido da meia-noite rolaram nuvens cor de sangue. A ventania arrancara sucupiras e imburanas, houvera relmpagos em demasia - e Sinha Vitria se escondera na camarinha com os filhos, tapando as orelhas, enrolando-se nas cobertas. Mas aquela brutalidade findara de chofre, a chuva cara, a cabea da cheia aparecera arrastando troncos e
animais mortos. A gua tinha subido, alcanado
a ladeira, estava com vontade de chegar aos juazeiros do fim do ptio. Sinha Vitria andava amedrontada. Seria possvel que a gua topasse os
juazeiros? Se isto acontecesse, a casa seria invadida, os moradores teriam de subir o morro, viver uns dias no morro, como pres.
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  Suspirava atiando o fogo com o cabo da 
quenga de coco. Deus no permitiria que sucedesse tal desgraa.
  - An!
  A casa era forte.
  - An!
  Os esteios de aroeira estavam bem fincados no cho duro. Se o rio chegasse ali, derrubaria apenas os torres que formavam o enchimento das paredes de taipa. Deus protegeria a famlia.
  - An!
  As varas estavam bem amarradas com cips nos esteios de aroeira. O arcabouo da casa resistiria  fria das guas. E quando elas baixassem, a famlia regressaria. Sim, viveriam todos no mato, como pres. Mas voltariam quando as guas baixassem, tirariam do barreiro terra para vestir o esqueleto da casa.
  - An!
  Sinha Vitria moveu o abano com fora para 
no ouvir a barulho do rio, que se aproximava. 
Seria que ele estava com inteno de progredir? 
  O abano zumbia, e o rumor da enchente era um 
sopro, um sopro que esmorecia para l dos juazeiros.
Fabiano contava faanhas. Comeara moderadamente, mas excitara-se pouco a pouco e agora via os acontecimentos com exagero e otimismo, estava convencido de que praticara feitos notveis. Necessitava esta convico. Algum tempo antes acontecera aquela desgraa: o soldado amarelo provocara-o na feira, dera-lhe uma surra de faco e metera-o na cadeia. Fabiano passara semanas capiongo, fantasiando vinganas, vendo a criao definhar na catinga torrada. Se a 
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seca chegasse, ele abandonaria mulher e filhos, 
coseria a facadas o soldado amarelo, depois mataria o juiz, o promotor e o delegado. Estivera uns 
dias assim murcho, pensando na seca e roendo a 
humilhao. Mas a trovoada roncara, viera a 
cheia, e agora as goteiras pingavam, o vento 
entrava pelos buracos das paredes.
  Fabiano estava contente e esfregava as mos. 
Como o frio era grande, aproximou-as das labaredas. Relatava um fuzu terrvel, esquecia as 
pancadas e a priso, sentia-se capaz de atos 
importantes.
  O rio subia a ladeira, estava perto dos juazeiros. No havia notcia de que os houvesse atingido - e Fabiano, seguro, baseado nas informaes dos mais velhos, narrava uma briga de que sara vencedor. A briga era sonho, mas Fabiano acreditava nela.
  As vacas vinham abrigar-se junto  parede da casa, pegada ao curral, a chuva fustigava-as, os chocalhos batiam. Iriam engordar com o pasto novo, dar crias. O pasto cresceria no campo, as rvores se enfeitariam, o gado se multiplicaria. 
  Engordariam todos, ele Fabiano, a mulher, os 
dois filhos e a cachorra Baleia. Talvez Sinha Vitria adquirisse uma cama de lastro de couro. Realmente o jirau de varas onde se espichavam era 
incmodo.
  Fabiano gesticulava. Sinha Vitria agitava o 
abano para sustentar as labaredas no angico molhado. Os meninos, sentindo frio numa banda e calor na outra, no podiam dormir e escutavam as lorotas do pai. Comearam a discutir em voz baixa uma passagem obscura da narrativa. No conseguiram entender-se, arengaram azedos, iam 
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se atracando. Fabiano zangou-se com a impertinncia deles e quis puni-los. Depois moderou-se, 
repisou o trecho incompreensvel utilizando palavras diferentes.
  O menino mais novo bateu palmas, olhou as mos de Fabiano, que se agitavam por cima das labaredas, escuras e vermelhas. As costas ficavam na sombra, mas as palmas estavam iluminadas e cor de sangue. Era como se Fabiano tivesse esfolado um animal. A barba ruiva e emaranhada estava invisvel, os olhos azulados e imveis fixavam-se nos ties, a fala dura e rouca entrecortava-se de silncios. Sentado no pilo, Fabiano derreava-se, feio e bruto, com aquele jeito de bicho lerdo que no se agenta em dois ps.

  O menino mais velho estava descontente. 
No podendo perceber as feies do pai, cerrava 
os olhos para entend-lo bem. Mas surgira uma 
dvida. Fabiano modificara a histria - e isto 
reduzia-lhe a verossimilhana. Um desencanto. 
Estirou-se e bocejou. Teria sido melhor a repetio das palavras. Altercaria com o irmo procurando interpret-las. Brigaria por causa das palavras - e a sua convico encorparia. Fabiano devia t-las repetido. No. Aparecera uma variante, o heri tinha-se tornado humano e contraditrio. O menino mais velho recordou-se de um brinquedo antigo, presente de seu Toms da bolandeira. Fechou os olhos, reabriu-os, sonolento. O ar que entrava pelas rachas das paredes esfriava-lhe uma perna, um brao, todo o lado direito. Virou-se, os pedaos de Fabiano sumiram-se. O brinquedo se quebrara, o pequeno entristecera vendo as peas inteis. Lembrou-se dos currais feitos de seixos midos, sob as catingueiras.
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  Agora a lagoa estava cheia, tinha coberto os currais que ele construra. O barreiro tambm se enchera, atingia a parede da cozinha, as guas 
dele juntavam-se s da lagoa. Para ir ao quintal onde havia craveiros e panelas de losna, Sinha Vitria saa pela porta da frente, descia o copiar 
e atravessava a porteira de barana. Atrs da casa, as cercas, o p de turco e as catingueiras estavam dentro da gua. As goteiras pingavam, os 
chocalhos das vacas tiniam, os sapos cantavam. 
O som dos chocalhos era familiar, mas a cantiga 
dos sapos e o rumor das goteiras causavam estranheza. Tudo estava mudado. Chovia o dia inteiro, a noite inteira. As moitas e capes de mato 
onde viviam seres misteriosos tinham sido violados. Havia l sapos. E a cantiga deles subia e descia, uma toada lamentosa enchia os arredores. 
Tentou contar as vozes, atrapalhou-se. Eram muitas, com certeza havia uma infinidade de sapos nas moitas e nos capes. Que estariam fazendo? 
Por que gritavam a cantoria gorgolejada e triste? 
Nunca vira um deles, confundia-os com os habitantes invisveis da terra e dos bancos de macambira. Enrolou-se, acomodou-se, adormeceu, uma banda aquecida pelo fogo, a outra banda protegida pelas ndegas de Sinha Vitria.
  O abano agitava-se, a madeira mida chiava, 
o vulto de Fabiano iluminava-se e escurecia.
  Baleia, imvel, paciente, olhava os carves e 
esperava que a famlia se recolhesse. Enfastiava-a o barulho que Fabiano fazia. No campo, seguindo uma rs, se esgoelava demais. Natural. Mas ali, a beira do fogo, para 'que tanto grito? Fabiano estava-se cansando  toa. Baleia se enjoava, cochilava e no podia dormir. Sinha Vitria devia 
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retirar os carves e a cinza, varrer o cho, deitarse na cama de varas com Fabiano. Os meninos se 
arrumariam na esteira, por baixo do carit, na 
sala. Era bom que a deixassem em paz. O dia todo 
espiava os movimentos das pessoas, tentando adivinhar coisas incompreensveis. Agora precisava 
dormir, livrar-se das pulgas e daquela vigilncia 
a que a tinham habituado. Varrido o cho com 
vassourinha, escorregaria entre as pedras, enroscar-se-ia, adormeceria no calor, sentindo o cheiro das cabras molhadas e ouvindo rumores desconhecidos, o tique-taque das pingueiras, a cantiga dos sapos, o sopro do rio cheio. Bichos midos e sem dono iriam visit-la.
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Festa
  FABIANO, Sinha Vitria e os meninos iam  festa de Natal na cidade. Eram trs horas, fazia grande calor, redemoinhos espalhavam por cima das rvores amarelas nuvens de poeira e folhas secas.
  Tinham fechado a casa, atravessado o ptio, 
descido a ladeira, e pezunhavam nos seixos como 
bois doentes dos cascos. Fabiano, apertado na 
roupa de brim branco feita por Sinha Terta, com 
chapu de beata, colarinho, gravata, botinas de 
vaqueta e elstico, procurava erguer o espinhao, 
o que ordinariamente no fazia. Sinha Vitria, 
enfronhada no vestido vermelho de ramagens, 
equilibrava-se mal nos sapatos de salto enorme. 
Teimava em calar-se como as moas da rua - e dava topadas no caminho. Os meninos estreavam cala e palet. Em casa sempre usavam camiSinhas de riscado ou andavam nus. Mas Fabiano tinha comprado dez varas de pano branco na loja e incumbira Sinha Terta de arranjar farpelas para ele e para os filhos. Sinha Terta achara pouca a fazenda, e Fabiano se mostrara desentendido, certo de que a velha pretendia furtar-lhe os retalhos. Em conseqncia as roupas tinham sado curtas, estreitas e cheias de emendas.
  Fabiano tentava no perceber essas desvantagens. Marchava direito, a barriga para fora, as 
costas aprumadas, olhando a serra distante. De 
ordinrio olhava o cho, evitando as pedras, os 
tocos, os buracos e as cobras. A posio forada
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cansou-o. E ao pisar a areia do rio, notou que assim no poderia vencer as trs lguas que o separavam da cidade. Descalou-se, meteu as meias no 
bolso, tirou o palet, a gravata e o colarinho, roncou aliviado. Sinha Vitria decidiu imit-lo: arrancou os sapatos e as meias, que amarrou no 
leno. Os meninos puseram as chinelinhas debaixo do brao e sentiram-se  vontade.
  A cachorra Baleia, que vinha atrs, incorporou-se ao grupo. Se ela tivesse chegado antes provavelmente Fabiano a teria enxotado. E Baleia passaria a festa junto s cabras que sujavam o copiar. Mas com a gravata e o colarinho machucados no bolso, o palet no ombro e as botinas enfiadas num pau, o vaqueiro achou-se perto dela e acolheu-a.
  Retomou a posio natural: andou cambaio, a cabea inclinada. Sinha Vitria, os dois meninos e Baleia acompanharam-no. A tarde foi comida facilmente e ao cair da noite estavam na beira do riacho,  entrada da rua.
  A Fabiano parou, sentou-se, lavou os ps duros, procurando retirar das gretas fundas o barro que l havia. Sem se enxugar, tentou calar-se - e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias de algodo formaram bolos nos peitos dos ps e as botinas de vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitria levantou a saia, sentou-se no cho e limpou-se tambm. Os dois meninos entraram no riacho, esfregaram os ps, saram, calaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitria aprontava-se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a obstinao de uma daquelas amaldioadas botinas; a outra emperrava, e ele, com 
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os dedos nas alas, fazia esforos inteis. Sinha 
Vitria dava palpites que irritavam o marido. No 
havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no 
taco. A um arranco mais forte, a ala de trs 
rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mos pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo, 
coxeando, uma perna mais comprida que a outra. 
Com raiva excessiva, a que se misturava alguma 
esperana, deu uma patada violenta no cho. A 
carne comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia 
molhada rasgou-se e o p amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano soltou 
um suspiro largo de satisfao e dor. Em seguida 
tentou prender o colarinho duro ao pescoo, mas 
os dedos trmulos no realizaram a tarefa. Sinha 
Vitria auxiliou-o: o boto entrou na casa estreita e a gravata amarrou-se. As mos sujas, suadas, 
deixaram no colarinho manchas escuras.
  - Est certo, grunhiu Fabiano.
  Atravessaram a 'pinguela e alcanaram a ril. Sinha Vitria caminhava aos tombos, por causa dos saltos dos sapatos, e conservava o guarda-chuva suspenso, com o casto para baixo e a biqueira para cima, enrolada no leno. Impossvel dizer porque Sinha Vitria levava o guarda-chuva com biqueira para cima e o casto para baixo. Ela prpria no saberia explicar-se, mas sempre vira as outras matutas procederem assim e adotava o costume.
Fabiano marchava teso.
  Os dois meninos espiavam os lampies e adivinhavam casos extraordinrios. No sentiam curiosidade, sentiam medo, e por isso pisavam 
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devagar, receando chamar a ateno das pessoas. 
Supunham que existiam mundos diferentes da 
fazenda, mundos maravilhosos na serra azulada. 
Aquilo, porm, era esquisito. Como podia haver 
tantas casas e tanta gente? Com certeza os, homens 
iriam brigar. Seria que o povo ali era brabo e no 
consentia que eles andassem entre as barracas? 
Estavam acostumados a agentar cascudos e puxes de orelhas. Talvez as criaturas desconhecidas no se comportassem como Sinha Vitria, mas os pequenos retraam-se, encostavam-se s paredes, meio encandeados, os ouvidos cheios de rumores estranhos.
Chegaram  igreja, entraram. Baleia ficou 
passeando na calada, olhando a rua, inquieta. 
Na opinio dela, tudo devia estar no escuro, porque era noite, e a gente que andava no quadro precisava deitar-se. Levantou o focinho, sentiu um cheiro que lhe deu vontade de tossir. Gritavam demais ali perto e havia luzes em abundncia, mas o que a incomodava era aquele cheiro de fumaa.
  Os meninos tambm se espantavam. No 
mundo, subitamente alargado, viam Fabiano e Sinha Vitria muito reduzidos, menores que as figuras dos altares. No conheciam altares, mas presumiam que aqueles objetos deviam ser preciosos. As luzes e os cantos extasiavam-nos. De luz havia, na fazenda, o fogo entre as pedras da cozinha e o candeeiro de querosene pendurado pela asa numa vara que saa da taipa; de canto, o bemdito de Sinha Vitria e o aboio de Fabiano. O aboio era triste, uma cantiga montona e sem palavras que entorpecia o gado.
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  Fabiano estava silencioso, olhando as imagens e as velas acesas, constrangido na roupa nova, o pescoo esticado, pisando, em brasas. A multido apertava-o mais que a roupa, embaraava-o. 
  De perneiras, gibo- e guarda-peito, andava metido 
numa caixa, como tatu, mas saltava no lombo de 
um bicho e voava na catinga. Agora no podia 
virar-se: mos e braos roavam-lhe o corpo. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na 
cadeia. A sensao que experimentava no diferia muito da que tinha tido ao ser preso. Era como 
se as mos e os braos da multido fossem agarralo, subjug-lo, esprem-lo num canto de parede. 
  Olhou as caras em redor. Evidentemente as criaturas que se juntavam ali no o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questes e acabar mal a noite. Soprava e esforava-se inutilmente por abanar-se com o chapu. Difcil mover-se, estava amarrado. Lentamente conseguiu abrir caminho no povaru, esgueirou-se at junto da pia de gua benta, onde se 
deteve, receoso de perder de vista a mulher e os 
filhos. Ergueu-se nas pontas dos ps, mas isto 
lhe arrancou um grunhido: os calcanhares esfolados comeavam a afligi-lo. Distinguiu o coc de 
Sinha Vitria, que se escondia atrs de uma coluna. Provavelmente os meninos estavam com ela. 
A igreja cada vez mais se enchia. Para avistar a 
cabea da mulher, Fabiano precisava estirar-se, 
voltar o rosto. E o colarinho furava-lhe o pescoo. As botinas e o colarinho eram indispensveis. No poderia assistir  novena calado em alpercatas, a camisa de algodo aberta, mostrando o peito cabeludo. Seria desrespeito. Como tinha religio, entrava na igreja uma vez por ano.
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E sempre vira, desde que se entendera, roupas de 
festa assim: cala e palet engomados, batinas de 
elstico, chapu de baeta, colarinho e gravata. 
No se arriscaria a prejudicar a tradio, embora 
sofresse com ela. Supunha cumprir um dever, tentava aprumar-se. Mas a disposio esmorecia: o 
espinhao vergava, naturalmente, os braos mexiam-se desengonados.
  Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os 
outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. S lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os negociantes furtavam na medida, no preo e na conta. O patro realizava com pena e tinta clculos incompreensveis. Da ltima vez que se tinham encontrado houvera uma confuso de nmeros, e Fabiano, com os miolos ardendo, deixara indignado o escritrio do branco, certo de que fora enganado. Todos lhe davam prejuzo. Os caixeiros, os comerciantes e o proprietrio tiravam-lhe o couro, e os que no tinham negcio com ele riam vendo-o passar nas ruas, tropeando. Por isso Fabiano se desviava daqueles viventes. Sabia que a roupa nova cortada e cosida por Sinha Terta, o colarinho, a gravata, as botinas e o chapu de baeta o tornavam ridculo, mas no queria pensar nisto.
  - Preguiosos, ladres, faladores, mofinos.
  Estava convencido de que todos os habitantes 
da cidade eram ruins. Mordeu os beios. No poderia dizer semelhante coisa. Por falta menor agentara faco e dormira na cadeia. Ora, o soldado amarelo. .. Sacudiu a cabea, livrou-se da recordao desagradvel e procurou uma cara amiga na multido. Se encontrasse um 
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conhecido, iria cham-lo para a calada, abra-lo, sorrir, bater palmas. Depois falaria sobre gado. Estremeceu, tentou ver o coc de Sinha Vitria. Precisava ter cuidado para no se distanciar da mulher e dos filhos. Aproximou-se deles, alcanou-os no momento em que a igreja comeava a esvaziar-se.
Saram aos encontres, desceram os degraus. 
  Empurrado, machucado, Fabiano tornou a pensar 
no soldado amarelo. No quadro, ao passar pelo 
jatob, - virou o rosto. Sem motivo nenhum, o desgraado tinha ido provoc-lo, pisar-lhe o p. Ele 
se desviara, com bons modos. Como o outro insistisse, perdera a pacincia, tivera um rompante. Conseqncia: faco no lombo e uma noite de 
cadeia.
  Convidou a mulher e os filhos para os cavalinhos, arrumou-os, distraiu-se um pouco vendo-os rodar. Em seguida encaminhou-os as barracas de jogo. Coou-se, puxou o leno, desatou-o, contou o dinheiro, com a tentao de arrisc-lo no boz. Se fosse feliz, poderia comprar a cama de couro cru, a sonho de Sinha Vitria. Foi beber cachaa numa tolda, voltou, ps-se a rondar indeciso, pedindo com os olhos a opinio da mulher. Sinha Vitria fez um gesto de reprovao, e Fabiano retirou-se, lembrando-se do jogo que tivera em casa de seu Incio, com o soldado amarelo. Fora roubado, com certeza fora roubado. Avizinhou-se da tolda e bebeu mais cachaa. Pouca a pouco ficou sem-vergonha.
  - Festa  festa.
  Bebeu ainda uma vez e empertigou-se, olhou as pessoas desafiando-as. Estava resolvido a fazer uma asneira. Se topasse o soldado amarelo, esbodegava-se com ele. Andou entre as barracas,
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emproado, atirando coices no cho, insensvel s 
esfoladuras dos ps. Queria era desgraar-se, dar 
um pano de amostra quele safado. No ligava 
importncia  mulher e aos filhos, que o seguiam.
  - Aparea um homem! berrou.
  No barulho que enchia a praa ningum notou a provocao. E Fabiano foi esconder-se por 
detrs das barracas, para l dos tabuleiros de 
doces. Estava disposto a esbagaar-se, mas havia 
nele um resto de prudncia. Ali podia irritar-se, 
dirigir ameaas e desaforos a inimigos invisveis. 
Impelido por foras opostas, expunha-se e acautelava-se. Sabia que aquela exploso era perigosa, temia que o soldado amarelo surgisse de repente, viesse plantar-lhe no p a reina. O soldado amarelo, falto de substncia, ganhava fumaa na companhia dos parceiros. Era bom evit-lo. Mas a lembrana dele tornava-se s vezes horrvel. E Fabiano estava tirando uma desforra. Estimulado 
pela cachaa, fortalecia-se:
  - Cad o valente? Quem  que tem coragem de dizer que eu sou feio? Aparea um homem.
  Lanava o desafio numa fala atrapalhada, com o vago receio de ser ouvido. Ningum apareceu. E Fabiano roncou alto, gritou que eram todos uns frouxos, uns capados, sim senhor. Depois de muitos berros, sups que havia ali perto homens escondidos, com medo dele. Insultou-os:
  - Cambada de ...
  Parou agoniado, suando frio, a boca cheia de gua, sem atinar com a palavra. Cambada de qu? Tinha o nome debaixo da lngua., E a lngua engrossava, perra, Fabiano cuspia, fixava na mulher e nos filhos uns olhos vidrados. Recuou alguns passos, entrou a engulhar. Em seguida aproximou-se
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  79 - 80 figura

novamente das luzes, capengando, foi sentar-se na calada de uma loja. Betava desanimado, bambo; o entusiasmo arrefecera. Cambada de que? Repetia a pergunta sem saber o que procurava. Olhou de perto a cara da mulher, no conseguiu distinguir-lhe os traos. Sinha Vitria perceberia a atrapalhao dele? Havia ali outros matutos conversando, e Fabiano enjoou-os. Se no estivesse to ansiado, arrotando, suando, brigaria com eles. A interrogao que lhe aperreava o esprito confuso juntou-se a idia de que aquelas pessoas no tinham o direito de sentar-se na calada. Queria que. o deixassem com a mulher, os filhos e a cachorrinha. Cambada de qu? Soltou um grito spero, bateu palmas:
  - Cambada de cachorros.
  Descoberta a expresso teimosa, alegrou-se. 
Cambada de cachorros. Evidentemente os matutos como ele no passavam de cachorros. Procurou com as mos a mulher e os filhos, certificou-se de que eles estavam acomodados. Uma contrao violenta no pescoo entortou-lhe o rosto, a boca encheu-se novamente de saliva. Ps-se a cuspir. Serenou, respirou com fora, passou os dedos por um fio de baba que lhe pendia de beio. Estava era tonto, com uma zoada infeliz nos ouvidos. Ia jurar que mostrara valentia e correra perigo. Achava ao mesmo tempo que havia cometido uma falta. Agora estava pesado e com sono. Enquanto andara fazendo espalhafato, a cabea cheia de aguardente, desprezara as esfoladuras dos ps. Mas esfriava, e as botinas de vaqueta magoavam-nos em demasia. Arrancou-as, tirou as meias, libertou-se do colarinho, da gravata e do palet, enrolou tudo, fez um travesseiro,
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estirou-se no cimento, puxou para os olhos o chapu de baeta. E adormeceu, com o estmago embrulhado.
Sinha Vitria achava-se em dificuldade: torcia-se para satisfazer uma preciso e no sabia 
como se desembaraar. Podia esconder-se no fundo do quadro, por detrs das barracas, para l dos tamboretes das doceiras. Ergueu-se meio decidida, tornou a acocorar-se. Abandonar os meninos, o marido naquele estado? Apertou-se e observou os quatro cantos com desespero, que a preciso era grande. Escapuliu-se disfaradamente, chegou a esquina da loja, onde havia um magote de mulheres agachadas. E, olhando as frontarias das casas e as lanternas de papel, molhou o cho e os ps das outras matutas. Arrastou-se para junto da famlia, tirou do bolso o cachimbo de barro, atochou-o, acendeu-o, largou algumas baforadas longas de satisfao. Livre da necessidade, viu com interesse o formigueiro que circulava na praa, a mesa do leilo, as listas luminosas dos foguetes. 
  Realmente a vida no era m. Pensou com um 
arrepio na seca, na viagem medonha que fizera em 
caminhos abrasados, vendo ossos e garranchos. 
  Afastou a lembrana ruim, atentou naquelas belezas.  O burburinho da multido era doce, o realejo fanhoso dos cavalinhos no descansava. Para 
a vida ser boa, s faltava  Sinha Vitria uma 
cama igual  de seu Toms da bolandeira. Suspirou, pensando na cama de varas em que dormia. 
  Ficou ali de ccoras, cachimbando, os olhos e os 
ouvidos muito abertos para no perder a festa.
Os meninos trocavam impresses cochichando, aflitos com o desaparecimento da cachorra. Puxaram a manga da me. Que fim teria levado
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Baleia? Sinha Vitria levantou o brao num gesto mole e indicou vagamente dois pontos cardeais 
com o canudo .do cachimbo. Os pequenos insistiram. Onde estaria a cachorrinha? Indiferentes  
igreja, s lanternas de papel, aos bazares, s 
mesas de jogo e aos foguetes, s se importavam 
com as pernas dos transeuntes. Coitadinha, andava por a perdida agentando pontaps.
  De repente Baleia apareceu. Trepou-se na calada, mergulhou entre as saias das mulheres, passou por cima de Fabiano e chegou-se aos amigos, manifestando com a lngua e com o rabo um vivo contentamento. O menino mais velho agarrou-a. Estava segura. Tentaram explicar-lhe que tinham tido susto enorme por causa dela, mas Baleia no ligou importncia  explicao. Achava  que perdiam tempo num lugar esquisito, cheio de odores desconhecidos. Quis latir, expressar oposio a tudo aquilo, mas percebeu que no convenceria ningum e encolheu-se, baixou a cauda, 
resignou-se ao capricho dos seus donos.
  A opinio dos meninos assemelhava-se  dela. 
Agora olhavam as lojas, as toldas, a mesa do leilo. 
E conferenciavam pasmados. Tinham percebido 
que havia muitas pessoas no mundo. Ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossvel imaginar tantas maravilhas juntas. O menino mais novo teve uma dvida e apresentou-a timidamente ao irmo. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moas bem vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao esprito
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soprou-a no ouvido do irmo. Provavelmente 
aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza 
as preciosidades que se exibiam nos altares da 
igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. 
Puseram-se a discutir a questo intrincada. Como 
podiam os homens guardar tantas palavras? Era 
impossvel, ningum conservaria to grande soma 
de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. No tinham sido feitas por gente. E os indivduos que mexiam nelas 
cometiam imprudncia. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para no desencadear as foras estranhas que elas porventura encerrassem.
  Baleia cochilava, de quando em quando balanava a cabea e franzia o focinho. A cidade se enchera de suores que a desconcertavam.
  Sinha Vitria enxergava, atravs das barracas, a cama de seu Toms da bolandeira, uma cama de verdade.
  Fabiano roncava de papo para cima, as abas do chapu cobrindo-lhe os olhos, o quengo sobre 
as botinas de vaqueta. Sonhava, agoniado, e Baleia percebia nele um cheiro que o tornava irreconhecvel. Fabiano se agitava, soprando. M Muitos soldados amarelos tinham aparecido, pisavam-lhe os ps com enormes reinas e ameaavam-no com 
faces terrveis.
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   Baleia
  A CACHORRA Baleia estava para morrer. 
  Tinha emagrecido, o plo cara-lhe em vrios pontos, as costelas avultavam num fundo rseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchao dos beios dificultavam-lhe a comida e a bebida.
  Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princpio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoo um rosrio de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
  Ento Fabiano resolveu mat-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com 
o saca-trapo e fez teno de carreg-la bem para a cachorra no sofrer muito.
  Sinha Vitria fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraa e no se cansavam de repetir a mesma pergunta:
  - Vo bulir com a Baleia?
  Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
  Ela era como uma pessoa da famlia: brincavam juntos os trs, para bem dizer no se diferenavam, rebolavam na areia do rio e no 
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estrume fofo que ia subindo, ameaava cobrir o chiqueiro das cabras.
  Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinha Vitria levou-os para a cama de varas, 
deitou-os e esforou-se por tapar-lhes os ouvidos 
prendeu a cabea do mais velho entre as coxas e 
espalmou as mos nas orelhas do segundo. Como 
os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de 
subjug-los, resmungando com energia.
  Ela tambm tinha o corao pesado, mas resignava-se: naturalmente a deciso de Fabiano era necessria e justa. Pobre da Baleia.
  Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
  Os meninos comearam a gritar e a espernear. E como Sinha Vitria tinha relaxado os msculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
  - Capeta excomungado.
  Na luta que travou para segurar de novo o
filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. 
Atirou um cocorote ao crnio enrolado na coberta 
vermelha e na saia de ramagens.
  Pouco a pouco a clera diminuiu, e Sinha Vitria, embalando as crianas, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babo. Inconvenincia deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difcil Baleia endoidecer e lamentava que o marido no houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execuo era indispensvel.
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  Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinha Vitria encolheu o pescoo e tentou encostar os ombros s orelhas. Como isto era impossvel, levantou os, braos e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedao da cabea.
  Fabiano percorreu o alpendre, olhando a barana e as porteiras, aulando um co invisvel contra animais invisveis:
  - Eco! eco!
  Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou  janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coando-se a esfregar as 
peladuras no p de turco, levou a espingarda ao 
rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, at ficar no outro lado da rvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se 
ao longo da cerca do curral, deteve-se no mouro 
do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como 
o animal estivesse de frente e no apresentasse 
bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar as catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcanou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pos a latir desesperadamente.
  Ouvindo o tiro e os latidos, Sinha Vitria pegou-se  Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.
  E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, 
entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente 
aos craveiros e s panelas de losna, meteu-se por 
um buraco da cerca e ganhou o ptio, correndo em 
trs ps. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar
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Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das 
cabras. Demorou-se a um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
  Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna 
traseira. E, perdendo muito sangue, andou como 
gente, em dois ps, arrastando com dificuldade a 
parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
  Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de 
um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava 
as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados as feridas, era um bicho diferente dos outros.
  Caiu antes de alcanar essa cova arredada. 
Tentou erguer-se, endireitou a cabea e estirou as 
pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posio torcida, mexeu-se a 
custo, ralando as patas, cravando as unhas no 
cho, agarrando-se nos seixos midos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto as pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
  Uma sede horrvel queimava-lhe a garganta. 
Procurou ver as pernas e no as distinguiu : um 
nevoeiro impedia-lhe a viso. Ps-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente no latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptveis.
  Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
  Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.
Sentiu o cheiro bom dos pres que desciam do morro, mas o cheiro vinha, fraco e havia nele
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partculas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os pres, que pulavam e corriam em liberdade. 
  Comeou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a lngua pelos beios torrados e no experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os pres tinham fugido.
  Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mo. 
No conhecia o objeto, mas ps-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradveis. Fez um esforo para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as plpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. No poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a 
existncia em submisso, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
  O objeto desconhecido continuava a amea-la. Conteve a respirao, cobriu os dentes, espiou 
o inimigo por baixo das pestanas cadas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
  Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escurido, com certeza o sol desaparecera.
  Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se 
pela vizinhana.
  Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigao dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as 
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ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou 
a ausncia deles.
  No se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia no atribua a esse desastre a impotncia em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angstia apertou-lhe o pequeno corao. Precisava vigiar as cabras: quela hora cheiros de suuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar. as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do carit onde Sinha Vitria guardava o cachimbo.
  Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho no cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons no interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanaes familiares revelavam-lhe a presena deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
  Baleia respirava depressa, a boca aberta, os 
queixos desgovernados, a lngua pendente e insensvel. No sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difcil do barreiro ao fim do ptio desvaneciam-se no seu esprito.
  Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, 
Sinha Vitria retirava dali os carves e a cinza, varria com um molho de vassourinha o cho queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos
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 pres corriam e saltavam, um formigueiro de pres invadia a cozinha.
  A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trs era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doena.
  Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinha Vitria tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
  Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de pres. E lamberia as mos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianas se espojariam com ela, rolariam com ela num ptio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de pres, gordos, enormes.
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Contas
  FABIANO recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a tera dos cabritos. Mas como no tinha roa e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijo e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, no chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
  Se pudesse economizar durante alguns meses, 
levantaria a cabea. Forjara planos. Tolice, quem 
 do cho no se trepa. Consumidos os. legumes, 
rodas as espigas de milho, recorria a gaveta do 
amo, cedia por preo baixo o produto das sortes, 
Resmungava, rezingava, numa aflio, tentando 
espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, no seria 
roubado to descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se: Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juzo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoo inchando. De repente estourava
  - Conversa. Dinheiro anda num cavalo e 
ningum pode viver sem comer. Quem  do cho 
no se trepa.
  Pouco a pouco o ferro do proprietrio queimava os bichos de Fabiano. E quando no tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
  Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano 
ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a
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transao meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitria mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no cho sementes de vrias espcies, realizou somas e diminuies. No dia seguinte Fabiano voltou  cidade, mas ao fechar o negcio notou que as operaes de Sinha Vitria, como de costume, diferiam das do patro. Reclamou e obteve a explicao habitual: a diferena era proveniente de juros.
  No se conformou: devia haver engano. Ele 
era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que 
era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. No se 
descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. 
Passar a vida inteira assim no toco, entregando 
o que era dele de mo beijada! Estava direito 
aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar 
carta de alforria!
  O patro zangou-se, repeliu a insolncia, achou
bom que o vaqueiro fosse procurar servio noutra 
fazenda.
  A Fabiano baixou a pancada e amunhecou. 
Bem, bem. No era preciso barulho no. Se havia dito palavra -toa, pedia desculpa. Era bruto, no fora ensinado. Atrevimento no tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia l puxar questo com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorncia da mulher, provavelmente devia ser ignorncia da mulher. At estranhara as contas dela. Enfim, como no sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava no cair noutra.
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  O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o 
chapu varrendo o tijolo. Na porta, virando-se, 
enganchou as rosetas das esporas, afastou-se tropeando, os sapates de couro cru batendo no 
cho como cascos.
  Foi at a esquina, parou, tomou flego. No 
deviam trat-lo assim. Dirigiu-se ao quadro lentamente. Diante da bodega de seu Incio virou o 
rosto e fez uma curva larga. Depois que acontecera aquela misria, temia passar ali. Sentou-se 
numa calada, tirou do bolso o dinheiro, examinou-o, procurando adivinhar quanto lhe tinham furtado. No podia dizer em voz alta que aquilo era um furto, mas era. Tomavam-lhe o gado quase de graa e ainda inventavam juro. Que juro! O que havia era safadeza.
  - Ladroeira.
  Nem lhe permitiam queixas. Porque reclamara, achara a coisa uma exorbitncia, o branco se 
levantara furioso, com quatro pedras na mo. Para que tanto espalhafato?
  - Hum! hum!
  Recordou-se do que lhe sucedera anos atrs, antes da seca, longe. Num dia de apuro recorrera ao porco magro que no queria engordar no chiqueiro e estava reservado s despesas do Natal: matara-o antes de tempo e fora vend-lo na cidade. Mas o cobrador da prefeitura chegara com o recibo e atrapalhara-o. Fabiano fingira-se desentendido : no compreendia nada, era bruto. Como o outro lhe explicasse que, para vender o porco, devia pagar imposto, tentara convenc-lo de que ali no havia porco, havia quartos de porco, pedaos de carne. O agente se aborrecera, insultara-o, e Fabiano se encolhera. Bem, bem. Deus o
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livrasse de histria com o governo. Julgava que podia dispor dos seus troos. No entendia de imposto.
  - Um bruto, est percebendo?
  Supunha que o cevado era dele. Agora se a prefeitura tinha uma parte, estava acabado. Pois ia voltar para casa e comer a carne. Podia comer 
a carne? Podia ou no podia? O funcionrio batera o p agastado e Fabiano se desculpara, o chapu de couro na mo, o espinhao curvo:
  - Quem foi que disse que eu queria brigar? O melhor  a gente acabar com isso.
  Despedira-se, metera a carne no saco e fora 
vend-la noutra rua, escondido. Mas, atracado pelo 
cobrador, gemera no imposto e na multa. Daquele 
dia em diante no criara mais porcos. Era perigoso cri-los.
  Olhou as cdulas arrumadas na palma, os nqueis e as pratas, suspirou, mordeu os beios. 
Nem lhe restava o direito de protestar. Baixava 
a crista. Se no baixasse, desocuparia a terra, 
largar-se-ia com a mulher, os filhos pequenos e os cacarecos. Para onde? Hem? Tinha para onde levar a mulher e os meninos? Tinha nada!
  Espalhou a vista pelos quatro cantos. Alm 
dos telhados, que lhe reduziam o horizonte, a 
campina se estendia, seca e dura. Lembrou-se da 
marcha penosa que fizera atravs dela, com a 
famlia, todos esmolambados e famintos. Haviam 
escapado, e isto lhe parecia um milagre. Nem 
sabia como tinham escapado.
  Se pudesse mudar-se, gritaria bem alto que 
o roubavam. Aparentemente resignado, sentia 
um dio imenso a qualquer coisa que era ao mesmo tempo a campina seca, o patro, os soldados
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e os agentes da prefeitura. Tudo na verdade era 
contra ele. Estava acostumado, tinha a casca 
muito grossa, mas s vezes se arreliava. No havia pacincia que suportasse tanta coisa.
  - Um dia um homem faz besteira e se desgraa.
  Pois no estavam vendo que ele era de carne
e osso? Tinha obrigao de trabalhar para os 
outros, naturalmente, conhecia o seu lugar. Bem. 
Nascera com esse destino, ningum tinha culpa de 
ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que 
era possvel melhorar de situao, espantar-se-ia. 
Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar 
feridas com rezas, consertar cercas de inverno a 
vero. Era sina. O pai vivera assim, o av tambm. 
E para trs no existia famlia. Cortar mandacaru, ensebar ltegos - aquilo estava no sangue. 
Conformava-se, no pretendia mais nada Se lhe 
dessem o que era dele, estava certo. No davam. 
Era um desgraado, era como um cachorro,.s 
recebia ossos. Por que seria que os homens ricos 
ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Fazia 
at nojo pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias.
  Na palma da mo as notas estavam midas de suor. Desejava saber o tamanho da extorso. 
Da ltima vez que fizera contas com o amo o prejuzo parecia menor. Alarmou-se. Ouvira falar 
em juros e em prazos. Isto lhe dera uma impresso bastante penosa: sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difceis, ele saa logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente s serviam para encobrir ladroeiras. Mas eram 
bonitas. As vezes decorava algumas e empregava-as
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fora do propsito. Depois esquecia-as. Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica? Sinha Terta  que tinha uma ponta de lngua terrvel. Era: falava quase to bem como as pessoas da cidade. Se ele soubesse falar como Sinha 
Terta, procuraria servio noutra fazenda, haveria de arranjar-se. No sabia. Nas horas de aperto dava para gaguejar, embaraava-se como um menino, coava os cotovelos, aperreado. Por isso esfolavam-no. Safados. Tomar as coisas de um infeliz que no tinha onde cair morto! No viam que isso no estava certo? Que iam ganhar com 
semelhante procedimento? Hem? Que iam ganhar?
  - An!
  Agora no criava porco e queria ver o tipo 
da prefeitura cobrar dele imposto e multa. Arrancavam-lhe a camisa do corpo e ainda por cima 
davam-lhe faco e cadeia. Pois no trabalharia 
mais, ia descansar.
  Talvez no fosse. Interrompeu o monlogo, 
levou uma eternidade contando e recontando mentalmente o dinheiro. Amarrotou-o com fora, empurrou-o no bolso raso da cala, meteu na casa 
estreita o boto de osso. Porcaria.
  Levantou-se, foi at a porta de uma bodega, 
com vontade de beber cachaa. Como havia muitas pessoas encostadas ao balco, recuou. No gostava de se ver no meio do povo. Falta de costume. As vezes dizia uma coisa sem inteno de ofender, entendiam outra, e l vinham questes. Perigoso entrar na bodega. O nico vivente que o compreendia era a mulher. Nem precisava falar : bastavam os gestos. Sinha Terta  que se explicava como gente da rua. Muito bom uma 
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criatura ser assim, ter recurso para se defender. Ele no tinha. Se tivesse, no viveria naquele estado.
  Um perigo entrar na bodega. Estava com desejo de beber um quarteiro de cachaa, mas lembrava-se da ltima visita feita  venda de seu Incio. Se no tivesse tido a idia de beber, no lhe haveria sucedido aquele desastre. Nem podia tomar uma pinga descansado. Bem. Ia voltar para casa e dormir.
  Saiu lento, pesado, capiongo, as rosetas das 
esporas silenciosas. No conseguiria dormir. Na cama de varas havia um pau com um n, bem no 
meio. S muito cansao fazia um cristo acomodar-se em semelhante dureza. Precisava fatigar-se no lombo de um cavalo ou passar o dia consertando cercas. Derreado, bambo,, espichava-se e roncava como um porco. Agora no lhe seria possvel fechar os olhos. Rolaria a noite inteira sobre as varas, matutando naquela perseguio. Desejaria imaginar o que ia fazer para o futuro. No ia fazer nada. Matar-se-ia no servio e moraria numa casa alheia, enquanto o deixassem ficar. Depois sairia pelo mundo, iria morrer de fome na catinga seca.
  Tirou do bolso o rolo de fumo, preparou um cigarro com a faca de ponta. Se ao menos pudesse recordar-se de fatos agradveis, a vida no seria inteiramente m.
  Deixara a rua. Levantou a cabea, viu uma estrela, depois muitas estrelas. As figuras dos inimigos esmoreceram. Pensou na mulher, nos filhos e na cachorra morta. Pobre de Baleia. Era como se ele tivesse matado uma pessoa da famlia.
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  O Soldado Amarelo
  FABIANO meteu-se na vereda que ia desembocar na lagoa seca, torrada, coberta de catingueiras e capes de mato. Ia pesado, o alo cheio a tiracolo, muitos ltegos e chocalhos pendurados 
num brao. O faco batia nos tocos. Espiava o cho como de costume, decifrando rastos. Conheceu os da gua rua e da cria, marcas de cascos grandes e pequenos. A gua rua, com certeza. Deixara plos brancos num tronco de angico. Urinara na areia e o mijo desmanchara as pegadas, o que no aconteceria se se tratasse de um cavalo.
  Fabiano ia desprecatado, observando esses sinais e outros que se cruzavam, de viventes menores. Corcunda, parecia farejar o solo - e a catinga deserta animava-se, os bichos que ali tinham passado voltavam, apareciam-lhe diante dos olhos midos.
  Seguiu a direo que ~a gua havia tomado. 
Andara cerca de cem braas quando o cabresto de cabelo que trazia no ombro se enganchou num 
p de quip. Desembaraou o cabresto, puxou o faco, ps-se a cortar as quips e as palmatrias que interrompiam a passagem.
  Tinha feito um estrago feio, a terra se cobria de palmas espinhosas. Deteve-se percebendo rumor de garranchos, voltou-se e deu de cara com o soldado amarelo que, um ano antes, o levara a cadeia, onde ele agentara uma surra e passara a noite. Baixou a arma. Aquilo durou um segundo.
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 Menos: durou uma frao de segundo. Se houvesse durado mais tempo, o amarelo teria cado esperneando na poeira, com o quengo rachado. Como o impulso que moveu o brao de Fabiano foi muito forte, o gesto que ele fez teria sido bastante para um homicdio se outro impulso no lhe dirigisse o brao em sentido contrrio. A lmina parou de chofre, junto  cabea do intruso, bem em cima do bon vermelho. A princpio o vaqueiro no compreendeu nada. Viu apenas que estava ali um inimigo. De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade. Sentiu um choque violento, deteve-se, o 
brao ficou irresoluto, bambo, inclinando-se para 
um lado e para outro.
  O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia. E 
Fabiano tinha vontade de levantar o faco de 
novo. Tinha vontade, mas os msculos afrouxavam. Realmente no quisera matar um cristo: procedera como quando, a montar brabo, evitava galhos e espinhos. Ignorava os movimentos que fazia na sela. Alguma coisa o empurrava para a direita ou para a esquerda. Era essa coisa que ia partindo a cabea do amarelo. Se ela tivesse demorado um minuto, Fabiano seria um cabra valente. No demorara. A certeza do perigo surgira - e ele estava indeciso, de olho arregalado, respirando com dificuldade, um espanto verdadeiro no rosto barbudo coberto de suor, o cabo do faco mal seguro entre os dois dedos midos.
  Tinha medo e repetia que estava em perigo, mas isto lhe pareceu to absurdo que se ps 
a rir. Medo daquilo? Nunca vira uma pessoa tremer assim. Cachorro. Ele no era dunga na cidade? No pisava os ps dos matutos, na feira?
  
No botava gente na cadeia? Sem-vergonha, mofino.
  Irritou-se. Porque seria que aquele safado batia os dentes como um caititu? No via que ele 
era incapaz de vingar-se? No via? Fechou a cara. 
A idia do perigo ia-se sumindo. Que perigo? Contra aquilo nem precisava faco, bastavam as unhas. Agitando os chocalhos e os ltegos, chegou a mo esquerda, grossa e cabeluda,  cara do polcia, que recuou e se encostou a uma catingueira. Se no fosse a catingueira, o infeliz teria cado.
  Fabiano pregou nele os olhos ensangentados, meteu o faco na bainha. Podia mat-lo com as unhas. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. Sim senhor. Aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofensivas. Estava certo? O rosto de Fabiano contraa-se, medonho, mais feio que um focinho. 
  Hem? Estava certo? Bulir com as pessoas que no fazem mal a ningum. Porque? Sufocava-se, as rugas da testa aprofundavam-se, os pequenos olhos azuis abriam-se demais, numa interrogao dolorosa.
  O soldado encolhia-se, escondia-se por detrs da rvore. E Fabiano cravava as unhas nas palmas calosas. Desejava ficar cego outra vez. Impossvel readquirir aquele instante de inconscincia. Repetia que a arma era desnecessria, mas tinha a certeza de que no conseguiria utiliz-la - e apenas queria enganar-se. Durante um minuto a clera que sentia por se considerar impotente foi to grande que recuperou a fora e avanou para o inimigo.
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  A raiva cessou, os dedos que feriam a palma 
descerraram-se - e Fabiano estacou desajeitado, 
como um pato, o corpo amolecido.
  Grudando-se  catingueira, o soldado apresentava apenas um brao, uma perna e um pedao da cara, mas esta banda de homem comeava a crescer aos olhos do vaqueiro. E a outra parte, a que estava escondida, devia ser maior. Fabiano tentou afastar a idia absurda:
  - Como a gente pensa coisas bestas!
  Alguns minutos antes no pensava em nada, mas agora suava frio e tinha lembranas insuportveis. Era um sujeito violento, de corao perto da goela. No, era um cabra que se arreliava algumas vezes - e quando isto acontecia, sempre se dava mal. Naquela tarde, por exemplo, se no tivesse perdido a pacincia e xingado a me da autoridade, no teria dormido na cadeia depois de agentar zinco no lombo. Dois excomungados tinham-lhe cado em cima, um ferro batera-lhe no peito, outro nas costas, ele se arrastara tiritando como um frango molhado. Tudo 
porque se esquentara e dissera uma palavra inconsideradamente. Falta de criao. Tinha l culpa? O sarapatel se formara, o cabo abrira caminho entre os feirantes que se apertavam em redor: - "Toca pra frente". Depois surra e cadeia, 
por causa de uma tolice. Ele, Fabiano, tinha sido 
provocado. Tinha ou no tinha? Salto de reina 
em cima da alpercata. Impacientara-se e largara 
o palavro. Natural, xingar a me de uma pessoa 
no vale nada, porque todo o mundo v logo que 
a gente no tem a inteno de maltratar ningum. 
Um ditrio sem importncia. O amarelo devia saber isso. No sabia. Sara-se com quatro pedras
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  103 - 104 figura.

na mo, apitara. E Fabiano comera da banda podre. - "Desafasta".
  Deu um passo para a catingueira. Se ele gritasse agora "desafasta", que faria o polcia? No 
se afastaria, ficaria colado ao p de pau. Uma 
lazeira, a gente podia xingar a me dele. Mas 
ento ... Fabiano estirava o beio e rosnava. 
Aquela coisa arriada e achacada metia as pessoas 
na cadeia, dava-lhes surra. No entendia. Se fosse 
uma criatura de sade e muque, estava certo. Enfim apanhar do governo no  desfeita, e Fabiano at sentiria orgulho ao recordar-se da aventura. Mas aquilo... Soltou uns grunhidos. Porque 
motivo o governo aproveitava gente assim? S se 
ele tinha receio de empregar tipos direitos. Aquela cambada s servia para morder as pessoas inofensivas. Ele, Fabiano, seria to ruim se andasse 
fardado? Iria pisar os ps dos trabalhadores e dar 
pancada neles? No iria.
  Aproximou-se lento, fez uma volta, achou-se 
em frente do polcia, que embasbacou, apoiado ao 
tronco, a pistola e o punhal inteis. Esperou que 
ele se mexesse. Era uma lazeira, certamente, mas 
vestia farda e no ia ficar assim, os olhos arregalados, os beios brancos, os dentes chocalhando como bilros. Ia bater o p, gritar, levantar a espinha, plantar-lhe o salto da reina em cima da alpercata. Desejava que ele fizesse isso. A idia de ter sido insultado, preso, modo por uma criatura mofina era insuportvel. Mirava-se naquela 
covardia, via-se mais lastimoso e miservel que o 
outro.
  Baixou a cabea, coou os plos ruivos do 
queixo. Se o soldado no puxasse o faco, no 
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gritasse, ele, Fabiano, seria um vivente muito desgraado.
  Devia sujeitar-se quela tremura, quela amarelido? Era um bicho resistente, calejado. Tinha 
nervo, queria brigar, metera-se em espalhafatos 
e sara de crista levantada. Recordou-se de lutas 
antigas, em danas com fmea e cachaa. Uma vez, de lambedeira em punho, espalhara a negrada. A Sinha Vitria comeara a gostar dele. Sempre fora reimoso. Iria esfriando com a idade? Quantos anos teria? Ignorava, mas certamente envelhecia e fraquejava. Se possusse espelhos, veria rugas e cabelos brancos. Arruinado, um caco. No sentira a transformao, mas estava-se acabando.
  O suor umedeceu-lhe as mos duras. Ento? 
Suando com medo de uma peste que se escondia 
tremendo? No era uma infelicidade grande, a 
maior das infelicidades? Provavelmente no se esquentaria nunca mais, passaria o resto da vida assim mole e ronceiro. Como a gente muda! Era. 
Estava mudado. Outro indivduo, muito diferente do Fabiano que levantava poeira nas salas de dana. Um Fabiano bom para agentar faco no lombo e dormir na cadeira.
  Virou a cara, enxergou o faco de rasto. Aquilo nem era faco, no servia para nada. 
  Ora no servia!
  - Quem disse que no servia?
  Era um faco verdadeiro, sim senhor, movera-se como um raio cortando palmas de quip. E estivera a pique de rachar o quengo de um sem-vergonha. Agora dormia na bainha rota, era um troo intil, mas tinha sido uma arma. Se aquela coisa tivesse durado mais um segundo, o polcia estaria 
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morto. Imaginou-o assim, cado, as pernas abertas, 
os bugalhos apavorados, um fio de sangue empastando-lhe os cabelos, formando um riacho entre 
os seixos da vereda. Muito bem! Ia arrast-lo para dentro da catinga, entreg-lo aos urubus. E 
no sentiria remorso. Dormiria com a mulher, sossegado, na cama de varas. Depois gritaria aos meninos, que precisavam criao. Era um homem, 
evidentemente.
  Aprumou-se, fixou os olhos nos olhos do polcia, que se desviaram. Um homem. Besteira pensar que ia ficar murcho o resto da vida. Estava acabado? No estava. Mas para que suprimir aquele doente que bambeava e s queria ir para baixo? Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! No se inutilizava, no valia a pena inutilizar-se. Guardava a sua fora.
  Vacilou e coou a testa. Havia muitos bichinhos assim ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e ruins.
  Afastou-se, inquieto. Vendo-o acanalhado e ordeiro, o soldado ganhou coragem, avanou, pisou 
firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o 
chapu de couro.
  - Governo  governo.
  Tirou o chapu de couro, curvou-se e ensinou o caminho ao soldado amarelo.
  107

O Mundo Coberto de Penas
  O MULUNGU do bebedouro cobria-se de 
arribaes. Mau sinal, provavelmente o serto ia 
pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se 
nas rvores da beira do rio, descansavam, bebiam 
e, como em redor no havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraas. O sol chupava os poos, e aquelas excomungadas levavam o resto da gua, queriam matar o gado.
  Sinha Vitria falou assim, mas Fabiano resmungou, franziu a testa, achando a frase extravagante. Aves matarem bois e cabras, que lembrana! Olhou a mulher, desconfiado, julgou que ela estivesse tresvariando. Foi sentar-se no banco do copiar, examinou o cu limpo, cheio de claridades de mau agouro, que a sombra das arribaes cortava. Um bicho de penas matar o gado! Provavelmente Sinha Vitria no estava regulando.
  Fabiano estirou o beio e enrugou mais a 
testa suada: impossvel compreender a inteno 
da mulher. No atinava. Um bicho to pequeno! 
  Achou a coisa obscura e desistiu de aprofund-la. 
Entrou em casa, trouxe o ai, preparou um cigarro, bateu com o fuzil na pedra, chupou uma tragada longa. Espiou os quatro cantos, ficou alguns 
minutos voltado para o norte, coando o queixo.
  - Chi! Que fim de mundo!
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  No permaneceria ali muito tempo. No silncio comprido s se ouvia um rumor de asas.
Como era que Sinha Vitria tinha dito? A 
frase dela tornou ao esprito de Fabiano e logo a 
significao apareceu. As arribaes bebiam a 
gua. Bem. O gado curtia sede e morria. Muito 
bem. As arribaes matavam o gado. Estava certo. 
  Matutando, a gente via que era assim, mas Sinha 
Vitria largava tiradas embaraosas. Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade prxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinha Vitria. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha idias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situaes difceis encontrava sada. Ento! Descobrir que as arribaes matavam o gado! E matavam. Aquela hora o mulungu do bebedouro, sem folhas e sem flores, uma barrancharia pelada, enfeitava-se de penas.
  Desejou ver aquilo de perto, levantou-se, botou o ai a tiracolo, foi buscar o chapu de couro e a espingarda de pederneira. Desceu o copiar, 
atravessou o ptio, avizinhou-se da ladeira pensando na cachorra Baleia. Coitadinha. Tinham-lhe aparecido aquelas coisas horrveis na boca, o plo cara, e ele precisara mat-la. Teria procedido bem? Nunca havia refletido nisso. A cachorra estava doente. Podia consentir que ela mordesse os meninos? Podia consentir? Loucura expor as crianas  hidrofobia. Pobre da Baleia. Sacudiu a cabea para afast-la do esprito. Era o diabo daquela espingarda que lhe trazia a imagem da cadelinha. A espingarda, sem dvida. Virou o rosto defronte das pedras do fim do ptio, onde Baleia aparecera fria, inteiriada, com os olhos comidos pelos urubus.
  109

  Alargou o passo, desceu a ladeira, pisou a terra de aluvio, aproximou-se do bebedouro. Havia um bater doido de asas por cima da poa de gua 
preta, a garrancheira do mulungu estava completamente invisvel. Pestes. Quando elas desciam do serto, acabava-se tudo. O gado ia finar-se, at os espinhos secariam.
  Suspirou. Que havia de fazer? Fugir de novo, aboletar-se noutro lugar, recomear a vida. Levantou a espingarda, puxou o gatilho sem ponta,=~,ria. Cinco ou seis aves caram no cho, o resto se espantou, os galhos queimados surgiram nus. 
Mas pouco a pouco se foram cobrindo, aquilo no tinha fim.
  Fabiano sentou-se desanimado na ribanceira do bebedouro, carregou lentamente a espingarda
com chumbo mido e no socou a bucha, para a carga espalhar-se e alcanar muitos inimigos. 
Novo tiro, novas quedas, mas isto no deu nenhum prazer a Fabiano. Tinha ali comida para dois ou 
trs dias; se possusse munio, teria comida para semanas e ms.
  Examinou o polvarinho e o chumbeira, pensou na viagem, estremeceu. Tentou iludir-se, imaginou que ela no se realizaria se ele no a provocasse com idias ruins. Reacendeu o cigarro, procurou distrair-se falando baixo. Sinha Terta 
era pessoa de muito saber naquelas beiradas. Como andariam as contas com o patro? Estava ali o que ele no conseguiria nunca decifrar. Aquele 
negcio de juros engolia tudo, e afinal o branco ainda achava que fazia favor. O soldado amarelo...
Fabiano, encaiporado, fechou as mos e deu 
murros na coxa. Diabo. Esforava-se por esquecer
  110

uma infelicidade, e vinham outras infelicidades. No queria lembrar-se do patro nem do soldado amarelo. Mas lembrava-se, com desespero, enroscando-se como uma cascavel assanhada. Era um infeliz, era a criatura mais infeliz do mundo. 
  Devia ter ferido naquela tarde o soldado amarelo, devia t-lo cortado a faco. Cabra ordinrio, mofino, encolhera-se e ensinara o caminho. Esfregou a testa suada e enrugada. Para que recordar vergonha? Pobre dele. Estava ento decidido que viveria sempre assim? Cabra safado, mole. Se no fosse to fraco, teria entrado no cangao 
e feito misrias. Depois levaria um tiro de emboscada ou envelheceria na cadeia, cumprindo 
sentena, mas isto no era melhor que acabar-se numa beira de caminho, assando no calor, a mulher e os filhos acabando-se tambm. Devia ter furado o pescoo do amarelo com faca de ponta, devagar. Talvez estivesse preso e respeitado, um homem respeitado, um homem. Assim como estava, ningum podia respeit-lo. No era homem, no era nada. Agentava zinco no lombo e no se vingava.
  - Fabiano, meu filho, tem coragem. Tem vergonha, Fabiano. Mata o soldado amarelo. Os 
soldados amarelos so uns desgraados que precisam morrer. Mata o soldado amarelo e os que
mandam nele.
  Como gesticulava com furor, gastando muita energia, ps-se a resfolegar e sentiu sede. Pela
cara vermelha e queimada o suor corria, tornava mais escura a barba ruiva. Desceu da ribanceira, agachou-se  beira da gua salobra, ps-se a beber ruidosamente nas palmas das mos. Uma 
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nuvem de arribaes voou assustada. Fabiano levantou-se, um brilho de indignao nos olhos. 
- Miserveis.
  A clera dele se voltava de novo contra as aves. Tornou a sentar-se na ribanceira, atirou 
muitas vezes nos ramos do mulungu, o cho ficou 
todo coberto de cadveres. Iam ser salgados, estendidos em cordas. Tencionou aproveit-los como alimento na viagem prxima. Devia gastar o resto do dinheiro em chumbo e plvora, passar um dia no bebedouro, depois largar-se pelo mundo. 
Seria necessrio mudar-se? Apesar de saber perfeitamente que era necessrio, agarrou-se a esperanas frgeis. Talvez a seca no viesse, talvez 
chovesse. Aqueles malditos bichos  que lhe faziam medo. Procurou esquec-los. Mas como poderia esquec-los se estavam ali, voando-lhe em 
torno da cabea, agitando-se na lama, empoleirados nos galhos, espalhados no cho, mortos? Se no fossem eles, a seca no existiria. Pelo menos 
no existiria naquele momento: viria depois, seria mais curta. Assim, comeava logo - e Fabiano sentia-a de longe. Sentia-a como se ela j 
tivesse chegado, experimentava adiantadamente 
a fome, a sede, as fadigas imensas das retiradas. 
  Alguns dias antes estava sossegado, preparando 
ltegos, consertando cercas. De repente, um risco 
no cu, outros riscos, milhares de riscos juntos, 
nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruio. Ele j andava meio desconfiado vendo as 
fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhs longas e a vermelhido sinistra 
das tardes. Agora confirmavam-se as suspeitas.
- Miserveis.
  112

  As bichas excomungadas eram a causa da seca. Se pudesse mat-las, a seca se extinguiria. 
Mexeu-se com violncia, carregou a espingarda 
furiosamente. A mo grossa, cabeluda, cheia de 
manchas e descascada, tremia sacudindo a vareta,
  - Pestes.
  Impossvel dar cabo daquela praga. Estirou 
os olhos pela campina, achou-se isolado. Sozinho 
num mundo coberto de penas, de aves que iam com-lo. Pensou na mulher e suspirou. Coitada de Sinha Vitria, novamente nos descampados, transportando o ba de folha. Uma pessoa de tanto juzo marchar na terra queimada, esfolar os ps nos seixos, era duro. As arribaes matavam o gado. Como tinha Sinha Vitria descoberto aquilo. Difcil. Ele, Fabiano, espremendo os miolos. 
  No diria semelhante frase. Sinha Vitria fazia 
contas direito : sentava-se na cozinha, consultava montes de sementes de vrias espcies, correspondentes a mil-ris, tostes e vintns. E acertava. As contas do patro eram diferentes, arranjadas a tinta e contra o vaqueiro, mas Fabiano sabia que elas estavam erradas e o patro queria 
engan-lo. Enganava. Que remdio? Fabiano, um 
desgraado, um cabra, dormia na cadeia e agentava zinco no lombo. Podia reagir? No podia. Um 
cabra. Mas as contas de Sinha Vitria deviam ser 
exatas. Pobre de Sinha Vitria. No conseguiria 
nunca estender os ossos numa cama, o nico desejo que tinha. Os outros no se deitavam em camas? Receando mago-la, Fabiano concordava com ela, embora aquilo fosse um sonho. No poderiam dormir como gente. E agora iam ser comidos pelas arribaes.
  113

  Desceu da ribanceira, apanhou lentamente os 
cadveres, meteu-os no ai, que ficou cheio, empanzinado. Retirou-se devagar. Ele, Sinha Vitria e os dois meninos comeriam as arribaes.
  Se a cachorra Baleia estivesse viva, iria regalar-se. Porque seria que o corao dele se apertava? Coitadinha da cadela. Matara-a forado, por 
causa da molstia. Depois voltara aos ltegos, s 
cercas, s contas embaraadas do patro. Subiu 
a ladeira, avizinhou-se dos juazeiros. Junto a raiz 
de um deles a pobrezinha gostava de espojar-se, 
cobrir-se de garranchos e folhas secas. Fabiano 
suspirou, sentiu um peso enorme por dentro. Se 
tivesse cometido um erro? Olhou a plancie torrada, o morro onde os pres saltavam, confessou 
s catingueiras e aos alastrados que o animal tivera hidrofobia, ameaara as crianas. Matara-o 
por isso.
  Aqui as idias de Fabiano atrapalharam-se: a 
cachorra misturou-se com as arribaes, que no 
se distinguiam da seca. Ele, a mulher e os dois 
meninos seriam comidos. Sinha Vitria tinha razo : era atilada e percebia as coisas de longe. Fabiano arregalava os olhos e desejava continuar a admir-la. Mas o corao grosso, como um cururu, enchia-se com a lembrana da cadela. Coitadinha, magra, dura, inteiriada, os olhos arrancados pelos urubus.
Diante dos juazeiros, Fabiano apressou-se, 
Sabia l se a alma de Baleia andava por ali, fazendo visagem?
  Chegou-se a casa, com medo. Ia escurecendo, 
e quela hora ele sentia sempre uns vagos terrores. 
Ultimamente vivia esmorecido, mofino, porque as 
desgraas eram muitas. Precisava consultar Sinha
  114

Vitria, combinar a viagem, livrar-se das arribaes, explicar-se, convencer-se de que no praticara injustia matando a cachorra. Necessrio abandonar aqueles lugares amaldioados. Sinha Vitria pensaria como ele.
  115

Fuga
  A VIDA na fazenda se tornara difcil. Sinha Vitria benzia-se tremendo, manejava o rosrio, mexia os beios rezando rezas desesperadas. 
Encolhido no banco do copiar, Fabiano espiava a 
catinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No cu azul as ltimas arribaes tinham desaparecido. Pouco a 
pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um 
milagre.
  Mas quando a fazenda se despovoou, viu que 
tudo estava perdido, combinou a viagem com a 
mulher, matou o bezerro morrinhento que possuam, salgou a carne, largou-se com a famlia, 
sem se despedir do amo. No poderia nunca liquidar aquela dvida exagerada. S lhe restava jogar-se ao mundo, como negro fugido.
  Saram de madrugada. Sinha Vitria meteu 
o brao pelo buraco da parede e fechou a porta da 
frente com a taramela. Atravessaram o ptio, deixaram na escurido o chiqueiro e o curral, vazios, de porteiras abertas, o carro de bois que apodrecia, os juazeiros. Ao passar junto s pedras onde os meninos atiravam cobras mortas, Sinha Vitria lembrou-se da cachorra Baleia, chorou, mas estava invisvel e ningum percebeu o choro.
  Desceram a ladeira, atravessaram o rio seco, 
tomaram rumo para o sul. Com a fresca da madrugada, andaram bastante, em silncio, quatro
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sombras no caminho estreito coberto de seixos 
midos - os meninos  frente, conduzindo trouxas de roupa, Sinha Vitria sob o ba de folha pintada e a cabaa de gua, Fabiano atrs, de faco 
de rasto e faca de ponta, a cuia pendurada por 
uma correia amarrada ao cinturo, o ai a tiracolo, 
a espingarda de pederneira num ombro, o saco 
da matalotagem no outro. Caminharam bem trs 
lguas antes que a barra do nascente aparecesse
Fizeram alto. E Fabiano deps no cho parte 
da carga, olhou o cu, as mos em pala na testa. 
Arrastara-se at ali na incerteza de que aquilo 
fosse realmente mudana. Retardara-se e repreendera os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os -a poupar foras. A verdade  que no queria 
afastar-se da fazenda. A viagem parecia-lhe sem 
jeito, nem acreditava nela. Preparara-a lentamente, adiara-a, tornara a prepar-la, e s se resolvera a partir quando estava definitivamente perdido. 
  Podia continuar a viver num cemitrio? Nada o prendia quela terra dura, acharia um lugar menos seco para enterrar-se. Era o que Fabiano dizia, 
pensando em coisas alheias:" o chiqueiro e o curral, que precisavam conserto, o cavalo de fbrica, bom companheiro, a gua alaz, as catingueiras, as panelas de losna, as pedras da cozinha, a cama de varas. E os ps dele esmoreciam, as alpercatas calavam-se na escurido. Seria necessrio largar tudo? As alpercatas chiavam de novo no caminho 
coberto de seixos.
  Agora Fabiano examinava o cu, a barra que tingia o nascente, e no queria convencer-se da 
realidade. Procurou distinguir qualquer coisa diferente da vermelhido que todos os dias espiava, com o corao aos baques. As mos grossas, por
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baixo da aba curva do chapu, protegiam-lhe os olhos contra a claridade e tremiam.
  Os braos penderam, desanimados.
  - Acabou-se.
  Antes de olhar o cu, j sabia que ele estava negro num lado, cor de sangue no outro, e ia tornar-se profundamente azul. Estremeceu como se 
descobrisse uma coisa muito ruim.
  Desde o aparecimento das arribaes vivia 
desassossegado. Trabalhava demais para no perder o sono. Mas no meio do servio um arrepio 
corria-lhe no espinhao,  noite acordava agoniado e encolhia-se num canto da cama de varas, 
mordido pelas pulgas, conjecturando misrias.
  A luz aumentou e espalhou-se na campina. S 
a principiou a viagem. Fabiano atentou na mulher e nos filhos,- apanhou a espingarda e o saco 
dos mantimentos, ordenou a marcha com uma interjeio spera.
  Afastaram-se rpidos; como se algum os tangesse, e as alpercatas de Fabiano iam quase tocando os calcanhares dos meninos. A lembrana 
da cachorra Baleia picava-o, intolervel. No podia livrar-se dela. Os mandacarus e os alastrados 
vestiam a campina,, espinho, s espinho. E Baleia 
aperreava-o. Precisava fugir daquela vegetao 
inimiga.
  Os meninos corriam. Sinha Vitria procurou 
com a vista o rosrio de contas brancas e azuis 
arrumado entre os peitos, mas, com o movimento que fez, o ba de folha pintada ia caindo. 
Aprumou-se e endireitou o ba, remexeu os beios numa orao. Deus Nosso Senhor protegeria 
os inocentes. Sinha Vitria fraquejou, uma ternura imensa encheu-lhe o corao. Reanimou-se,
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tentou libertar-se dos pensamentos tristes e 
conversar com o marido por monosslabos. Apesar de ter boa ponta de lngua, sentia um aperto 
na garganta e no poderia explicar-se. Mas achava-se desamparada e mida na solido, necessitava um apoio, algum que lhe desse coragem. Indispensvel ouvir qualquer som. A manh, sem pssaros, sem folhas e sem vento, progredia num silncio de morte. A faixa vermelha desaparecera, dilura-se no azul que enchia o cu. Sinha Vitria precisava falar. Se ficasse calada, seria como um p de mandacaru, secando, morrendo. Queria enganar-se, gritar, dizer que era forte, e a quentura medonha, as rvores transformadas em garranchos, a imobilidade e o silncio no valiam nada. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou-se, esqueceu os objetos prximos, os espinhos, as arribaes, os urubus que farejavam carnia. 
  Falou no passado, confundiu-o com o futuro. No 
poderia voltar a ser o que j tinham sido?
Fabiano hesitou, resmungou, como fazia sempre que lhe dirigiam palavras incompreensveis. 
  Mas achou bom que Sinha Vitria tivesse puxado 
conversa. Ia num desespero, o saco da comida e 
o ai comeavam a pesar excessivamente. Sinha 
Vitria fez a pergunta, Fabiano matutou e andou 
bem meia lgua sem sentir. A princpio quis responder que evidentemente eles eram o que tinham 
sido; depois achou que estavam mudados, mais 
velhos e mais fracos. Eram outros, para bem dizer. Sinha Vitria insistiu. No seria bom tornarem a viver como tinham vivido, muito longe? 
Fabiano agitava a cabea, vacilando. Talvez fosse, 
talvez no fosse. Cochicharam uma conversa longa e entrecortada, cheia de mal-entendidos e 
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repeties. Viver como tinham vivido, numa caSinha 
protegida pela bolandeira de seu Toms. Discutiram e acabaram reconhecendo que aquilo no valeria a pena, porque estariam sempre assustados, pensando na seca. Aproximavam-se agora dos lugares habitados, haveriam de achar morada. No andariam sempre  toa, como ciganos. O vaqueiro ensombrava-se com a idia de que se dirigia a terras onde talvez no houvesse gado para tratar. Sinha Vitria tentou sosseg-lo dizendo que ele poderia entregar-se a outras ocupaes, e Fabiano estremeceu, voltou-se, estirou os olhas em direo  fazenda abandonada. Recordou-se dos animais feridos e logo afastou a lembrana. Que fazia ali virado para trs? Os animais estavam mortos. Encarquilhou as plpebras contendo as lgrimas, uma grande saudade espremeu-lhe o corao, mas um instante depois vieram-lhe ao esprito figuras insuportveis: o patro, o soldado amarelo, a cachorra Baleia inteiriada junto s pedras do fim do ptio.
  Os meninos sumiam-se numa curva do caminho.- Fabiano adiantou-se para alcan-los. Era 
preciso aproveitar a disposio deles, deixar que 
andassem  vontade. Sinha Vitria acompanhou o 
marido, chegou-se aos filhos. Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos; 
o patro, o soldado amarelo e a cachorra Baleia esmoreceram no seu esprito.
  E a conversa recomeou. Agora Fabiano estava meio otimista. Endireitou o saco da comida, 
examinou o rosto carnudo e as pernas grossas da mulher. Bem. Desejou fumar. Como segurava a 
boca do saco e a coronha da espingarda, no pde
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realizar o desejo. Temeu arriar, no prosseguir na 
caminhada. Continuou a tagarelar, agitando a cabea para afugentar uma nuvem que, vista de perto, escondia" o patro, o soldado amarelo e a 
cachorra Baleia. Os ps calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou no caminhariam? Sinha Vitria achou que sim. Fabiano agradeceu a opinio dela e gabou-lhe as pernas grossas, as ndegas volumosas, os peitos cheios. As bochechas de Sinha Vitria 
avermelharam-se e Fabiano repetiu com entusiasmo o elogio. Era. Estava boa, estava taluda, poderia andar muito. Sinha Vitria riu e baixou os olhos. No era tanto como ele dizia no. Dentro de pouco tempo estaria magra, de seios bambos. 
  Mas recuperaria carnes. E talvez esse lugar para 
onde iam fosse melhor que os outros onde tinham 
estado. Fabiano estirou o beio, duvidando. Sinha 
Vitria combateu a dvida. Porque no haveriam 
de ser gente, possuir uma cama igual  de seu 
Toms da bolandeira? Fabiano franziu a testa: l 
vinham os despropsitos. Sinha Vitria insistiu e 
dominou-o. Porque haveriam de ser sempre desgraados, fugindo no mato como bichos? Com 
certeza existiam no mundo coisas extraordinrias. 
Podiam viver escondidos, como bichos? Fabiano 
respondeu que no podiam.
  - O mundo  grande.
  Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande - e marchavam, meio confiados, meio inquietos. Olharam os meninos, que olhavam os montes distantes, onde havia seres misteriosos. Em que estariam pensando? zumbiu Sinha Vitria. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeo. Menino  bicho mido, no
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pensa. Mas Sinha Vitria renovou a pergunta - 
e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razo. Tinha sempre razo. Agora desejava saber 
que iriam fazer os filhos quando crescessem.
- Vaquejar, opinou Fabiano.
  Sinha Vitria, com uma careta enjoada, balanou a cabea negativamente, arriscando-se a 
derrubar o ba de folha. Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraa. Vaquejar, que idia! 
Chegariam a uma terra distante, esqueceriam a 
catinga onde havia montes baixos, cascalhos, rios 
secos, espinho, urubus, bichos morrendo, gente 
morrendo. No voltariam nunca mais, resistiriam 
 saudade que ataca os sertanejos na mata. Ento 
eles eram bois para morrer tristes por falta de 
espinhos? Fixar-se-iam muito longe, adotariam 
costumes diferentes.
  Fabiano ouviu os sonhos da mulher, deslumbrado, relaxou os msculos, e o saco da comida 
escorregou-lhe no ombro. Aprumou-se, deu um puxo  carga. A conversa de Sinha Vitria servira muito: haviam caminhado lguas quase sem sentir. De repente veio a fraqueza. Devia ser fome. 
  Fabiano ergueu a cabea, piscou os olhos por baixo da aba negra e queimada do chapu de couro.
  Meio-dia, pouco mais ou menos. Baixou os olhos 
encandeados, procurou descobrir na plancie. uma 
sombra ou sinal de gua. Estava realmente com 
um buraco no estmago. Endireitou o saco de novo e, para conserv-lo em equilbrio, andou pendido, um ombro alto, outro baixo. O otimismo de Sinha Vitria j no lhe fazia mossa. Ela ainda se agarrava a fantasias. Coitada. Armar semelhantes planos, assim bamba, o peso do ba e da cabaa enterrando-lhe o pescoo no corpo.
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  Foram descansar sob os garranchos de uma 
quixabeira, mastigaram punhados de farinha e 
pedaos de carne, beberam na cuia uns goles de 
gua. Na testa de Fabiano o suor secava, misturando-se a poeira que enchia as rugas fundas, embebendo-se na correia do chapu. A tontura desaparecera, o estmago sossegara. Quando partissem, a cabaa no envergaria o espinhao de Sinha Vitria. Instintivamente procurou no descampado indcio de fonte. Um friozinho agudo arrepiou-o. Mostrou os dentes sujos num riso infantil. Como podia ter frio com semelhante calor? 
  Ficou um instante assim besta, olhando os filhos, 
a mulher e a bagagem pesada. O menino mais 
velho esbrugava um osso com apetite. Fabiano 
lembrou-se da cachorra Baleia, outro arrepio correu-lhe a espinha, o riso besta esmoreceu.
  Se achassem gua ali por perto, beberiam 
muito, sairiam cheios, arrastando os ps. Fabiano 
comunicou isto a Sinha Vitria e indicou uma depresso do terreno. Era um bebedouro, no era? 
Sinha Vitria estirou o beio, indecisa, e Fabiano afirmou o que havia perguntado. Ento ele 
no conhecia aquelas paragens? Estava a falar 
variedades? Se a mulher tivesse concordado, Fabiano arrefeceria, pois lhe faltava convico; como 
Sinha Vitria tinha dvidas, Fabiano exaltava-se, 
procurava incutir-lhe coragem. Inventava o bebedouro, descrevia-o, mentia sem saber que estava 
mentindo. E Sinha Vitria excitava-se, transmitia-lhe esperanas. Andavam por lugares conhecidos. Qual era o emprego de Fabiano? Tratar de bichos, explorar os arredores, no lombo de um cavalo. E ele explorava tudo. Para l dos montes afastados havia outro mundo, um mundo temeroso;
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mas para c, na plancie, tinha de cor plantas 
e animais, buracos e pedras.
  Os meninos deitaram-se e pegaram no sono. 
Sinha Vitria pediu o binga ao companheiro e 
acendeu o cachimbo. Fabiano preparou um cigarro. Por enquanto estavam sossegados. O bebedouro indeciso tornara-se realidade. Voltaram a cochichar projetos, as fumaas do cigarro e do cachimbo misturaram-se. Fabiano insistiu nos seus conhecimentos topogrficos, falou no cavalo de fbrica. Ia morrer na certa, um animal to bom. Se tivesse vindo com eles, transportaria a bagagem. 
  Algum tempo comeria folhas secas, mas alm dos 
montes encontraria alimento verde. Infelizmente pertencia ao fazendeiro - e definhava, sem ter 
quem lhe desse a rao. Ia morrer o amigo, lazarento e com esparaves, num canto de cerca, vendo os urubus chegarem banzeiros, saltando, os bicos ameaando-lhe os olhos. A lembrana das aves 
medonhas, que ameaavam com os bicos pontudos os olhos de criaturas vivas, horrorizou Fabiano. Se elas tivessem pacincia, comeriam tranqilamente a carnia. No tinham pacincia aquelas 
pestes vorazes que voavam l em cima, fazendo 
curvas.
  - Pestes.
  Voavam sempre, no se podia saber donde vinha tanto urubu.
  - Pestes.
  Olhou as sombras movedias que enchiam a 
campina. Talvez estivessem fazendo crculos em 
redor do pobre cavalo esmorecido num canto de 
cerca. Os olhos de Fabiano se umedeceram. Coitado do cavalo. Estava magro, pelado, faminto. 
e arredondava uns olhos que pareciam de gente
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  - Pestes.
  O que indignava Fabiano era o costume que 
os miserveis tinham de atirar bicadas aos olhos 
de criaturas que j no se podiam defender. Ergueu-se, assustado, como se os bichos tivessem descido do cu azul e andassem ali perto, num vo baixo, fazendo curvas cada vez menores em torno do seu corpo, de Sinha Vitria e dos meninos.
  Sinha Vitria percebeu-lhe a inquietao na 
cara torturada e levantou-se tambm, acordou os. 
filhos, arrumou os picus. Fabiano retomou o carrego. Sinha Vitria desatou-lhe a correia presa ao cinturo, tirou a cuia e emborcou-a na cabea do 
menino mais velho, sobre uma rodilha de molambos. Em cima ps uma trouxa. Fabiano aprovou o arranjo, sorriu, esqueceu os urubus e o cavalo. 
  Sim senhor. Que mulher! Assim ele ficaria com 
a carga aliviada e o pequeno teria um guarda-sol. 
O peso da cuia era uma insignificncia, mas Fabiano achou-se leve, pisou rijo e encaminhou-se 
ao bebedouro. Chegariam l antes da noite, beberiam, descansariam, continuariam a viagem com o luar. Tudo isso era duvidoso, mas adquiria consistncia. E a conversa recomeou, enquanto o sol descambava.
  - Tenho comido toicinho com mais cabelo, 
declarou Fabiano desafiando o cu, os espinhos e 
os urubus.
  - No ? murmurou Sinha Vitria sem perguntar, apenas confirmando o que ele dizia.
Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, 
se foi esboando. Acomodar-se-iam num stio pequeno, o que parecia difcil a Fabiano, criado solto
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no mato. Cultivariam um pedao de terra. Mudarse-iam depois para uma cidade, e os meninos freqentariam escolas, seriam diferentes deles. Sinha Vitria esquentava-se. Fabiano ria, tinha desejo de 
esfregar as mos agarradas a boca do saco e  
coronha da espingarda de pederneira.
  No sentia a espingarda, o saco, as pedras 
midas que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro 
de carnias que empestavam o caminho. As palavras de Sinha Vitria encantavam-no. Iriam para
diante, alcanariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque no sabia como ela era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de Sinha Vitria, as palavras que Sinha Vitria murmurava porque tinha confiana nele. E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difceis e necessrias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o serto continuaria a mandar gente para l. 
  O serto mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitria e os dois meninos.
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VALORES E MISRIAS DAS VIDAS SECAS LVARO LINS
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  Valores e Misrias das Vidas Secas
  I - Graciliano Ramos em termos de construo do romance e arte do estilo
   O SR. GRACILIANO RAMOS, autor de quatro romances muito discutidos, um dos quais1 o principal, este, ao que penso, vindo logo aps S. Bernardo - aparece agora, em segunda edio, representa um caso de estudo crtico muito difcil para os seus contemporneos 2. Logo os seus romances nos tentam a confundir, em anlises convergentes, a sua figura de escritor e a sua figura de homem. 
Existem homens que explicam as suas obras, como h 
obras que explicam os seus autores. No caso do Sr. Graciliano Ramos,  a obra que explica o homem. Quero dizer: o homem interior, o homem psicolgico. Estamos diante de um caso semelhante ao de Machado de Assis, no passado; igual ao do Sr. Otvio de Faria, no presente. A maneira de Machado de Assis, o Sr. Graciliano Ramos, nas aparncias, nas exterioridades, nada revela que o possa distinguir

(1 GRACILIANO RAMOS - Angstia, 2.' edio. Rio de Janeiro, 1941.
  2 A respeito deste ensaio sobre Graciliano Ramos, encontra-se na Pequena Bibliografia Crtica da Literatura Brasileira, editada pelo Ministrio da Educao e Cultura, a seguinte nota: "lvaro Lins: Jornal de Crtica - Segunda Srie. Rio de Janeiro, 
1943. (Vidas Secas, pgs. 73-82.) (Excelente estudo.)"
  E, do mesmo comentador, esta observao no seu livro Origens e Fins: "lvaro Lins, no melhor artigo que se escreveu sobre Graciliano Ramos, observou agudamente a abstrao do tempo - mas no tempo 
no havia horas, assinala o crtico - e acrescenta: Os outros personagens so projeo do personagem; Julio Tavares e Marina s existem para que Lus da Silva se atormente e cometa o seu crime. Tudo vem 
ao encontro do personagem principal - inclusive o instrumento do crime. 
  Estas palavras do crtico constituem a chave da obra do romancista: descrevem perfeitamente a nossa situao no sonho, em que tudo  criao do nosso prprio esprito." (V. Otto Maria Carpeaux - "Viso 
de Graciliano Ramos",* in Origens e Fins. Rio de Janeiro, 1943.)
  Nota da Editora - Este estudo sobre Graciliano Ramos encontra-se na ntegra em Angstia).
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de um homem comum. Tudo o que ele tem de 
especial, de anormal, de misterioso, fica reservado para a sua literatura e no para a sua vida. A obra de Machado de Assis esclareceu o "mistrio" Machado de Assis. Os romances do Sr. Graciliano Ramos esclarecero mais tarde o "mistrio" Graciliano Ramos.
  Onde se encontra, pois, a dificuldade para essa anlise esclarecedora? Encontra-se na circunstncia de ser o Sr. Graciliano Ramos um autor contemporneo, uma figura que encontramos nas ruas todos os dias. Essa proximidade determina a existncia de obstculos invencveis. Outros obstculos decorrem do respeito com que o crtico est sempre obrigado a tratar a figura pessoal de um autor vivo, pois somente a morte confere o direito de um julgamento definitivo, de uma interpretao minuciosa e profunda. Acho que seria uma violncia projetar sobre um autor ainda vivo todos os elementos de anlise que a sua obra oferece. No 
tanto pelo autor em si mesmo, com uma conscincia literria capaz de aceitar todos os exerccios da crtica, como pelos rigores da vida ordinria. Imagine-se um ministro da Viao que suspeitasse da psicologia de Machado de Assis todo o conhecimento que a sua obra hoje revela com uma categoria de certeza...
  Deixemos pois, para os dias de amanh, o que pode emergir de mais sugestivo num estudo crtico sobre o Sr. Graciliano Ramos: a interpretao da sua figura psicolgica atravs dos seus romances: O que nos fica permitido hoje, neste sentido,  uma anlise limitada. Um estudo que se detm mais sobre o romance do que sobre o romancista.
  A respeito do Sr. Graciliano, 'Ramos ainda no me foi dado ler outra pgina mais explicativa do que o captulo que lhe dedicou o Sr. Osrio Borba, em A Comdia Literria 3. Trata-se de um golpe de vista muito agudo que se desdobra em diversos aspectos, todos considerveis. Nessa pgina encontro sugeridas as duas linhas convergentes da personalidade do Sr. Graciliano Ramos: um homem do seu meio fsico e social, ao mesmo tempo que um romancista voltado para a introspeco, a anlise, os motivos psicolgicos.

(3 OSRIO BORBA - A Comdia Literria. Rio de Janeiro, 1941. 
  Desta obra fez a Editora Civilizao Brasileira S. A., em data recente, uma nova edio melhor cuidada).
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  Meio fsico - o que seria, no romance, a paisagem 
exterior - no aparece muito objetivamente no romance do Sr. Graciliano Ramos. Ele exprime o ambiente com fidelidade, mas somente em funo de seus personagens. A ambincia  um acidente; o personagem  que  a vida romanesca. A paisagem exterior* torna-se uma projeo do 
homem. O romance S. Bernardo desenvolve-se todo dentro de uma fazenda; Paulo Honrio coloca a sua ambio no domnio da terra. Contudo, a fazenda e a terra no so as realidades fundamentais de S. Bernardo. A realidade fundamental do romance  a figura de Paulo Honrio com o seu egosmo, com a sua maldade, com o seu cime, com a sua desumanidade.
  Em Angstia, a abstrao ser mais completa. Encontramos certas vises do Rio, de Macei, de cidades do interior. Todas elas, porm, constituem menos uma literatura paisagstica do que a localizao explicativa do personagem Lus da Silva.
E da a superposio de planos na obra do Sr. Graciliano Ramos; o plano regional que se revela nos seus personagens marcados pelo meio fsico e social, na forma dos dilogos, todos muito fiis  lngua falada, nos ambientes onde se desenvolvem as figuras e os enredos dos seus livros; o plano universal que se alarga nos dramas dos seus romances, nos sentimentos complexos dos seus personagens, na linguagem muito rigorosa e pura - pode-se 
dizer: clssica - do romancista.
  Dois planos, portanto, que chegam a espantar o leitor: o prosasmo - mais ainda: uma espcie de vulgaridade - da vida ordinria dos personagens e a alucinao da sua vida psicolgica; a linguagem trivial dos dilogos e a linguagem literria do autor propriamente: figuras de aparncia simples e rstica - o caso de Paulo Honrio, por exemplo - agitadas por sentimentos complexos e sensaes 
fora do comum.
  Em qualquer desses aspectos permanece uma preocupao dominante: a de revelar o carter humano. No s o romancista est dominado por esse desejo de conhecer os seus semelhantes, mas esta aspirao  tambm dos seus personagens. Vivem todos voltados para dentro, com olhos
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que se inutilizaram quase para os quadros exteriores da vida. 
  Faz uma confisso neste sentido o personagem principal de Angstia:
  Nunca presto ateno s coisas, no sei para que diabo quero olhos, Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso, como sou besta! Caminhei tanto e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda a projeo, instruir-me vendo as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba.
  Esta preocupao de fixar e exibir o carter humano poderia significar que o Sr. Graciliano Ramos estima os seus semelhantes e est interessado pela sua sorte. Mas, no. 
  Verifica-se o contrrio; o seu julgamento dos homens  o mais pessimista e frio que se possa imaginar; o seu sentimento em face deles  de dio ou desprezo. Numa certa ocasio, o personagem de Angstia diz que tem pena de Marina, que tem pena de D. Adlia, que merecem compaixo todas as criaturas que so instrumentos. Contudo, embora todas as criaturas sejam instrumentos de destino ou dos 
seus instintos, nos romances do Sr. Graciliano Ramos, no encontramos em parte nenhuma aquele sentimento de piedade que Lus da Silva sugere. Com uma fria impassibilidade, o romancista contempla a misria humana de seus personagens. No lhes concede a mnima piedade. Ao contrrio: o romancista chega a estar animado de um certo prazer nessa contemplao da misria humana. Podemos falar, sem exagero, de uma crueldade do criador diante da sua criao.
  Trata-se de um caso semelhante ao de Machado de 
Assis, com muitas linhas de aproximao a estabelecer entre os dois. J houve mesmo quem falasse de influncia; e o Sr. Graciliano Ramos se defendeu com um argumento fulminante: que nunca havia lido antes Machado de Assis... 
  O problema dessa influncia ser mais tarde esclarecido pela histria literria; o que interessa agora  um problema de aproximao e semelhana, que no nasce s da influncia direta de um autor sobre outro, mas de uma certa identidade de sentimentos em face da vida e da literatura. O que aproxima o Sr. Graciliano Ramos de Machado de Assis  a mesma concepo da vida, o mesmo julgamento dos homens, 
ao lado de uma semelhante estrutura temperamental.
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  Todavia, o Sr. Graciliano Ramos parece-me mais feroz e cruel na sua criao romanesca. O sentimento de Machado de Assis: indiferena e ceticismo; o seu humour era destruidor, mas sereno. O do Sr. Graciliano Ramos: dio ou desprezo, sendo o seu humour - muito raro, alis - de um carter sombrio e spero. Em conjunto, a sua obra constitui uma stira violenta e um panfleto furioso contra a humanidade. O que a torna, nesse sentido, menos ostensiva e mais arejada,  a circunstncia de ser o Sr. Graciliano Ramos um verdadeiro artista, um escritor da mais 
alta categoria.
  Dos seus romances, acho S. Bernardo o que mais explica a idia que o Sr. Graciliano Ramos sustenta a respeito dos homens. Ser impossvel no estender um pouco ao romancista esta concluso de Paulo Honrio: Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos, Havia bichos domsticos, como Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o servio do campo, bois mansos. 
Os currais que se escoram uns nos outros, l embaixo, tinham lmpadas eltricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus.

  E no  que Paulo Honrio esteja muito acima dos 
outros seres que julga to friamente. A princpio, uma desmedida ambio deu-lhe essa miragem de superioridade. 
  Depois, a sua impresso desaba no momento mesmo em 
que alcana os seus fins. Desaba sob o peso do egosmo e do cime que devoram Paulo Honrio. Julga-se, ele prprio, ento, nestas palavras:
  O que estou  velho. Cinqenta anos perdidos, cinqenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros.

  Em Angstia, Lus da Silva representa uma figura de fracassado; no existe uma ambio frentica para determin-lo, como a de Paulo Honrio. O seu egosmo no  o do conquistador, mas o do vencido. Num certo sentido, representa o outro lado de Paulo Honrio. Lus da Silva no tem a ambio, no tem a vontade, no tem nenhum sentimento forte. Paulo Honrio  a vida instintiva que se afirma; Lus da Silva, a vida instintiva que se dissolve. 
  Conquanto opostos, eles se encontram na seqncia final
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dessas vidas instintivas e materialistas; encontram-se na concluso de que a vida no tem sentido nem finalidade.
  Estamos ante a filosofia do nada - a da absoluta negao e destruio - que o Sr. Graciliano Ramos cultiva pra os seus personagens. A ascenso de Paulo Honrio ou a decadncia de Lus da Silva representam caminhos diferentes para o mesmo niilismo. Os demais personagens no se afastam desse fim melanclico. Todos se acham dentro da vida, como que perdidos e abandonados, sem nada saber da sua origem nem do seu destino. Os seus atos se originam e se justificam, por si mesmos, fora de qualquer preocupao moral e transcendente.
  Um mundo romanesco, o do Sr. Graciliano Ramos, que 
nunca se afasta da dimenso naturalstica. Representa, ele, o estranho fenmeno de um romancista introspectivo, interiorista, analtico, sem que leve em conta no homem outra condio que no seja a materialstica. Um romancista da 
alma humana, tendo uma concepo materialista dos homens e da vida. E o materialismo dos personagens  que os leva logicamente ao rlativismo moral. Nem praticam a bondade, nem acreditam sequer na existncia dela. Por detrs de todos os gestos surge o interesse egosta, uma segunda e secreta inteno. Em Angstia, conta Lus da Silva a propsito da morte do av: Iam levando o cadver de Camilo Pereira da Silva. Corri para a sala, chorando. Na verdade, chorava por causa da xcara de caf de 
Rosenda, mas consegui enganar-me e evitei remorsos.
E mais adiante o seu relativismo moral chega a um 
momento supremo nesta reflexo: Um crime, uma ao boa d tudo no mesmo. Afinal j nem sabemos o que  bom e o que  ruim, to embotados vivemos.
  Tambm Paulo Honrio, em S. Bernardo, conclui sem 
qualquer hesitao: A verdade  que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuzo; fiz 
coisas ruins que me deram lucro.
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  Esse relativismo moral implica outro relativismo de ordem genrica que se constitui uma espcie de ambincia para o Sr. Graciliano Ramos, como romancista. Toda a sua obra guarda um certo carter de vertigem, de oscilao, de ambivalncia.  o relativismo do tempo, o qual, como se sabe, representa uma contingncia muito importante no desenvolvimento romanesco. Tendo uma concepo materialista da vida, o Sr. Graciliano Ramos no poderia utilizar-se do recurso do tempo metafsico. Por outro lado, para um romancista psicolgico, o tempo convencional e naturalista seria um obstculo. O Sr. Graciliano Ramos deliberou, ento, valer-se de um recurso intermedirio: a abstrao do tempo. Em Angstia encontramos esta observao reveladora:
Mas no tempo no havia horas.
  Em S. Bernardo aparece um relgio, mas que "tinha 
parado". O tempo torna-se assim um elemento indeterminado e arbitrrio. Nunca se sabe exatamente quando a narrativa corresponde, em tempo e ao, aos fatos e atos que a produzem. Bem: a histria de Lus da Silva pode estar contida em dez meses ou em dez anos, indiferentemente. Sim: "no tempo no havia horas." E a ausncia do tempo vai determinar a ausncia de "ao" direta no romance. A ao de Angstia  uma ao reflexiva: Angstia  uma "histria", uma narrao do passado, uma vida da memria. De certo modo, isto mesmo acontece com todos os romances; todos os romances so 
episdios j passados e por isso  que podem ser contados; mas o romancista lhes d uma iluso de vida presente, atravs de um jogo malabarstico com o tempo. O Sr. Graciliano Ramos desdenha esta iluso. Angstia  certamente um romance, porm, em termos formais, dir-se-ia um livro de memrias, um dirio, um inventrio, um testamento. O 
mesmo que sucede com S. Bernardo, em que Paulo Honrio confessa que nada mais pretende do que fixar a experincia da sua vida. Contudo, S. Bernardo ainda contm uma ordem narrativa, uma regular disposio romanesca, enquanto Angstia se realiza sob o signo da mais oscilante desordem.
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  Confesso que essa desordem me agrada porque tem 
correspondncia no esprito mesmo do romance. O esprito do romance e a sua forma se ajustam harmonicamente na desordem. Desordem, que vem de Lus da Silva, a determinar Angstia, como Paulo Honrio determina S. Bernardo. 
  Os outros personagens so projees do personagem principal. Julio Tavares o Marina s existem para que Lus da Silva se atormente e cometa o seu crime. Tudo vem ao encontro do personagem principal - inclusive o instrumento do crime - para que ele realize o seu destino. Representa esta circunstncia uma outra forma de egosmo, desde que o egosmo  o sentimento dominante nos personagens mais 
caractersticos do Sr. Graciliano Ramos.
  Na forma de Angstia, o egosmo do personagem principal se afirma pela concentrao do romance em sua prpria pessoa. Lus da Silva  todo o romance Angstia. 
  Contando a sua histria, Lus da Silva absorve-a em si mesmo. O romance toma, por isso, a forma e as dimenses do seu esprito. Toma-se um dirio que o personagem escreve posteriormente. A sua memria se desdobra em ziguezague e a narrao romanesca acompanha fielmente esse ziguezague da memria de Lus da Silva. O seu mtodo  o da confisso psicanaltica: uma palavra que explica outra, um pensamento que esclarece outro. E tambm o da 
associao das idias: uma idia que atrai outra idia, uma lembrana que sugere outra lembrana. Lus da Silva no vive seno da sua memria e da sua imaginao. Mas a sua prpria imaginao, no romance, constitui um resultado da memria, Lus da Silva conta o que imaginou anteriormente, a sua imaginao j se tornou um fato do passado, um patrimnio da memria.
  Observa-se, por isso, que a veridicidade do romance do Sr. Graciliano Ramos  uma realidade esttica, no dinmica. 
  Dinmica, por exemplo,,  a realidade romanesca de Dostoievski. A do Sr. Graciliano Ramos, porm, nunca ser desta categoria, porque ele  um racionalista, um analista, um frio experimentador. A sua raa  a de Stendhal, nunca a de um Dostoievski. Por isso  que do seu romance se depreende mais a "histria" de uma angstia do que a "angstia" em si mesma. Uma angstia racionalizada e histrica, no uma angstia natural e presente. O estado de delrio,
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de exaltao, de demonismo, o estado dionisaco capaz de exprimir a angstia - este no ser nunca o do Sr. Graciliano Ramos. O seu estado pode-se definir como o do historiador da angstia.
Um estado de razo, de lucidez, de sobriedade. O critrio que preside a sua obra  um critrio de inteligncia; a sua potncia  cerebral e abstrata. No sei, por isso, que misteriosa intuio para se definir levou o Sr. Graciliano Ramos a escolher o ttulo Vidas Secas para um de seus romances. Sem dvida, todos os seus personagens so de fato "vidas secas". Os seus personagens e este estilo em que se 
exprime o romancista.
  Admirvel estilo de conciso, unidade entre as palavras e os seus sentidos, rgido ascetismo tanto na narrao como nos dilogos, rpidos, exatos, precisos. Dilogos e narrao que fazem do Sr. Graciliano Ramos um mestre do seu ofcio de romancista. Um mestre da arte de escrever, acrescento, sem nenhum medo de estar errando.
  E essa categoria, ele a conquistou com as "vidas secas" que povoam o seu mundo romanesco. Este mundo romanesco  um mundo sem amor. A sua concepo da vida est toda limitada, de um lado pelos instintos humanos, do outro por um destino cego e fatalista. Mas no esqueo o que essa viso do mundo significa de sofrimento e de tormentos ntimos na figura do seu criador. Por isso a circunstncia de aceitar-se ou no toda a concepo da vida, que ressalta dos romances do Sr. Graciliano Ramos, no deve impedir ningum de admirar o artista que a sustenta; o artista que transforma este mundo rido e sombrio numa verdadeira categoria de arte. Alm disso, quem sabe, estes romances podem constituir mais do que uma obra de arte, isto : a libertao de um homem que se evade de um mundo que detesta, embora carregando o destino de somente criar mundos semelhantes. E aqui est uma lio: a de 
que nem sempre a imaginao dispe de recursos para dominar a vida real 4.
  Outubro de 1941.

  (4 Com as suas idias e a sua experincia de hoje, este Autor no mais a escreveria "nem sempre". Escreveria "nunca").
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  11 - As "memrias" do romancista explicam a natureza e a espcie dos seus romances
  Sim, um mundo sem amor e sem alegria, o da fico 
do SF. Graciliano Ramos. Aparece nos seus romances toda uma galeria de personagens egostas, cruis, insensveis. 
  Paulo Honrio, em S. Bernardo, ergue-se como um smbolo, marcado pelo cime, pela maldade, pelo egosmo, pelo temperamento spero e solitrio. Os seres deste mundo de fico em quatro romances - um dos mais impressionantes, sobretudo pela construo literria e pelo senso artstico, em toda a literatura brasileira - so em geral desgraados, criaturas em desencontro com o destino, humilhadas e destroadas. 
  No encontram sentido para a vida, no se associam nem se solidarizam em movimentos de ascenso; carregam, com a ausncia de f, um tamanho poder de negao que s encontra correspondncia numa espcie de niilismo moral, num desejo secreto de aniquilamento e destruio. O ambiente que os envolve tem qualquer coisa de, deserto ou de 
casa fechada e fria. Nenhuma salvao, nenhum socorro vir do exterior. Os personagens esto entregues aos seus prprios destinos. E no contam sequer com a piedade do romancista. O Sr. Graciliano Ramos movimenta as suas figuras humanas com uma tamanha impassibilidade que logo indica o desencanto e a indiferena com que olha para a humanidade. Que me lembre, s a um dos seus personagens ele trata com verdadeira simpatia, e este no  gente, mas 
um cachorro, em Vidas Secas. Contudo, a piedade que no lhes concede diretamente, o Sr. Graciliano Ramos provoca dos leitores para os seus personagens. E isto s acontece quando nas razes da vida do romancista tambm se encontram os mesmos traos de infelicidade, tristeza e solido, os vestgios ou as sombras dos sonhos sufocados e estrangulados. O autor no pode ento exprimir piedade, porque 
o pudor e a dignidade artstica o impedem de ter piedade de si mesmo. Ele no tem pena dos seus personagens, porque est projetado neles, e dispe de foras suficientes para de si mesmo no ter pena nenhuma. Este fenmeno de criao literria, nos romances do Sr. Graciliano Ramos, aparece 
agora devidamente esclarecido na revoluo da sua infncia por intermdio de um livro de memrias5.

  (5 GRACILIANO RAMOS - Infncia. Rio de Janeiro, 1945).
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Sim:  em Infncia que poderemos encontrar a significao de S. Bernardo e Angstia. As memrias da vida real explicam o mundo de fico do romancista. Nul ne peut crire la vie d'un homme qui lui mme - dissera JeanJacques Rousseau para justificar as suas Confessions. Ele envolvera, no entanto, as misrias a confessar numa forma 
de poesia, porque a sua sinceridade era a do sonhador. O Sr. Graciliano Ramos  um anti-sonhador por excelncia; e deu  expresso das suas lembranas um carter de intransigente realismo. Ele no nos revela sequer os seus sonhos de menino, os sonhos que ocupam a maior parte do universo das crianas, e que vo sendo depois esquecidos ou 
destrudos pela realidade, no contato com os adultos. O que vemos aqui j  essa prpria realidade em toda a sua dureza e crueldade. Nenhuma poesia, nenhum sonho, nenhuma fantasia na infncia triste e solitria do romancista.
  Pergunta-se: o que  rigorosamente real e o que  imaginado neste livro de memrias? A resposta no ter importncia para o conhecimento psicolgico do autor. A sinceridade do artista no  um problema que se resolva nos mesmos termos da sinceridade nas relaes sociais entre os homens. Um artista, ao deformar a vida, no mistifica a ningum, apenas a si mesmo. Quando um artista traa de si prprio uma imagem - ela tem sempre autenticidade, se no a dos fatos, a da vida interior, que  a principal no 
caso. Ele  realmente o que imagina ter sido.
  Ora, as memrias do Sr. Graciliano Ramos constituem a expresso realista das suas lembranas; e so ainda mais autnticas ou reveladoras nos detalhes que ele, porventura, lhes tenha acrescentado pela imaginao. Para se definir e 
revelar h ainda que levar em conta o processo, o esprito de escolha do memorialista. No lhe  possvel narrar tudo o que aconteceu durante a infncia, nem exprimir todas as impresses e sensaes de menino. Muitos episdios esto 
mortos pelo esquecimento, a muitas lembranas ser difcil ressuscitar porque se tornam confusas e indecifrveis. As recordaes da infncia em qualquer pessoa representam matria - no sentido da filosofia esttica de Benedetto Croce: "a emocionalidade ainda no elaborada esteticamente" s - e s adquirem existncia pela forma mediante a
  (6 BENEDETPO CROCE - Nuovi saggi di estetica. Laterzia. Bari, 1926).
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intuio, que vem a ser a mesma coisa que a expresso artstica. Digamos ento, com mais segurana, que nesse fenmeno de captar o passado, e dar-lhe forma pela intuio, no h lugar propriamente para o ato de escolha. Ao abandonar certos aspectos da infncia, ao fixar-se em outros, o artista no o faz arbitrariamente, mas determinado pelas impresses que se prolongaram nele, que o influenciaram, que marcaram depois os seus sentimentos, idias e vises de adulto.
  No ser significativo que em Infncia no apaream os instantes agradveis, felizes, iluses e sonhos do menino Graciliano Ramos? Que tenham sido conservados pela memria, de preferncia, os momentos de infelicidade, tristeza o solido, as humilhaes e decepes da infncia?  que os 
primeiros foram superficiais e efmeros, talvez porque menos freqentes, logo esmagados pelos segundos, mais constantes; o foram estes que permaneceram, que lhe marcaram a natureza humana. Quando se decidiu a escrever um livro de memrias, a sensibilidade reagiu em toda a sua exacerbao;
o exprimiu-se pela exteriorizao daquilo que nela se gravara mais profundamente.
  No mundo infantil do Sr. Graciliano Ramos a injustia se erguia no horror dessa diviso: de um lado, crianas submissas e maltratadas, do outro lado, adultos, cruis e despticos. Pais, mes, mestres, todos os adultos pareciam dotados da misso particular de oprimir as crianas. Um mundo intolervel de castigos, privaes e vergonhas. Uma 
ou outra exceo, que atravessa de leve essas recordaes, no chega a partir a unidade na fisionomia de infortnio e desolao. Toma quase que o aspecto de uma figura do outro mundo a professora Maria, com a voz suave, com seus impulsos de ternura, que por isso mesmo tanto surpreendeu a 
princpio o menino Graciliano Ramos, j acostumado, em casa, com o tratamento de "bolos, chicotadas, cocorotes, puxes de orelhas". A professora Maria, porm,  um episdio que logo desaparece; a realidade que fica  a da professora Maria do O, quase sdica no tratamento impiedoso dado  menina Adelaide. E o que foi o espetculo
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da infncia desgraada, para a viso do Sr. Graciliano Ramos, v-se no captulo comovente "A Criana Infeliz," um dos ltimos do livro.
Seria impossvel que esse ambiente de educao deformada, de crueldade e dureza, no se refletisse na imaginao do romancista, no influsse decisivamente na sua viso dos acontecimentos e dos homens. Alm das sugestes, indiretas, ele indica claramente as impresses que guardou para sempre de certos episdios da infncia. Um dia, o seu pai 
julgou que ele havia escondido um cinturo, quis obrig-lo a encontrar um objeto em que ele no havia sequer tocado. 
  Foi surrado brutalmente, sem investigao e sem culpa. Ao reviver agora esta cena, reconstruda no livro com magnfica intensidade literria, o Sr. Graciliano Ramos v nela o seu "primeiro contato com a justia", e comenta:
  As minhas primeiras relaes com a justia foram dolorosas e deixaram-me funda impresso.
  Seu pai, juiz substituto de interior, prendera impulsivamente um pobre-diabo, que nenhuma falta cometera, que no praticara nenhum crime. Testemunhando esse abuso de autoridade, escreve agora a respeito:
  Mais tarde, quando os castigos cessaram, tornei-me em casa insolente e grosseiro - e julgo que a priso de Venta-Romba influiu nisto. Deve ter contribudo tambm para a desconfiana que a autoridade me 
inspira.
  Teve desde cedo a sensao da desigualdade entre os homens:
  Notava diferenas entre os indivduos que se sentavam nas redes e os que se acocoravam nos alpendres. O gibo do meu pai tinha diversos enfeites; no de Amaro havia numerosos buracos.
  O folclore do seu ambiente no interior tornou-o ctico quanto ao herosmo:
Mais tarde, entrando na vida, continuei a venerar a deciso e o heroismo, quando isto se grava no papel e os gatos se transformam em papa-ratos. De perto, os individuos capazes de amarrar fachos nos 
rabos dos gatos nunca me causaram admirao. Realmente sao espantosos, mas  necessrio v-los a distncia, modificados.
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  Elogiaram-lhe certa vez, com risos, por pilhria, o seu palet cor de macaco; e ele deixou de acreditar em elogios: Guardei a lio, -conservei longos anos esse palet. Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pespontos das minhas aes cor de macaco. Pacincia, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o 
como ele  realmente: chinfrim e cor de macaco.

  Do ambiente familiar, a impresso definitiva que lhe ficou, traduz-se nesta confisso:

  Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, o pavor.
  Do pai e da me rev "pedaos deles, rugas, olhos 
raivosos, bocas irritadas e sem lbios, mos grossas e calosas, finas e leves, transparentes".
Porque no se sentiu amado, nem teve uma infncia de 
ternuras e afagos, o Sr. Graciliano Ramos reagiu com sentimentos de indiferena e desprezo em face de toda a humanidade. Ele no escreveu estas memrias apenas por motivos literrios, antes para se libertar dessas lembranas opressivas e torturantes. Escreveu a histria da sua infncia porque a 
detesta com amargura. No se achou, por isso, obrigado a complacncias para com os outros. Refere-se aos pais com realismo, com objetividade, como se estivesse. desligado deles. No manifesta propriamente dio a nenhum dos seres que o fizeram sofrer, mas d-lhes uma retribuio na frieza, 
na dureza implacvel com que os revive. E este rigor, este sistema anti-sentimental de observao, estende-se a si mesmo sem qualquer condescendncia. Verificamos nestas memrias que a atitude do Sr. Graciliano Ramos em face da vida no  bem a do humour, mas a do sarcasmo, produto da revolta 
de uma sensibilidade vibrtil e tensa. Sensibilidade que, maltratada, macerada, sufocada, reagiu depois por intermdio da criao de um mundo de fico em que se projetaram as sombras e as sensaes de um pavoroso mundo infantil.
  Literariamente, o Sr. Graciliano Ramos encontrou no gnero memrias uma forma de rara adequao para a sua
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arte de escritor, para o seu estilo. Creio que este  o mais bem escrito de todos os seus livros. Percebe-se aqui o apuro do trabalho de composio e estilo, o seguro artesanato literrio. A secura, a frieza dessas impresses de infncia encontra a devida correspondncia no seu estilo sbrio, asctico, livre de adornos. A prosa do Sr. Graciliano Ramos  moderna, no seu aspecto desnudado, no vocabulrio, no gosto das palavras e das construes sintticas, e  clssica pela correo, pelo tom como que hiertico das frases. O 
que a valoriza propriamente no  a beleza, no sentido hedonstico da palavra, mas a sua preciso, a sua capacidade de transmitir sensaes e impresses com um mnimo de metforas e imagens, quase s com o jogo e o atrito de vocbulos, principalmente de adjetivos. Destacaria em Infncia, 
pelo contedo dramtico e pela arte literria, captulos como. 
  "O Moleque Jos", "O Cinturo", "Minha Irm Natural", "Um Enterro", "Venta-Romba", "A Criana Infeliz". Nenhum deles, porm, chega a superar o captulo final, "Laura", em cujas pginas descreve a passagem da infncia para a adolescncia, com as primeiras inquietaes da carne e do sexo. Ao lado destes, certos captulos como "O Fim do Mundo", "O Inferno" e "Antnio do Vale" tornam-se mais ou menos insignificantes.
  Imagino que as pessoas sentimentais, ou as educadas normalmente, ficaro constrangidas ao ler as memrias do Sr. Graciliano Ramos, mas espero que, antes de tudo, tambm se sintam comovidas. Estas pginas determinam igualmente a compreenso dos seus romances, do seu mundo romanesco marcado pela tristeza e pela solido. Escreveu Wilhelm Dilthey que "a autobiografia no  seno a expresso literria da autognosis do homem acerca do curso de 
sua vida" 7. A autobiografia do Sr. Graciliano Ramos explica o carter spero e sombrio da sua obra de romancista: o criador de S. Bernardo e Angstia j estava no menino amargurado de Infncia, onde encontramos agora as razes do seu niilismo implacvel e devastador.

  Setembro de 1945.
  (7 WILHELM DILn4EY - La imaginacin del poeta, in Potica. Traduccin del alemn de Elsa Tahernig. Editorial Losada S.A. Buenos 
Aires, 1945).
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  III - Romances, novelas e contos: viso em bloco de uma obra de ficcionista
  Um acontecimento ao mesmo tempo literrio e editorial  o aparecimento em conjunto de todas as obras de fico do Sr. Graciliano Ramos, quatro romances e um livro de contos s. Em rigor, seria prefervel, porque mais exata, esta classificao: dois romances: Caets e Angstia; duas novelas: S. Bernardo e Vidas Secas; um volume de contos: 
Insnia. A distino no decorre do tamanho, nem mesmo da qualidade dos livros, mas do esprito de concepo e realizao. A falta de diferenciao neste sentido, , alis, muito comum na literatura brasileira, na qual a maioria dos livros classificados como romances mereceria com mais propriedade o ttulo de novelas. Por coincidncia, em nosso caso, dos dois livros do Sr. Graciliano Ramos que nos parecem especificamente romances, um, Angstia,  a sua obraprima, e uma das realizaes importantes e caractersticas da fico brasileira, enquanto o outro, Caets,  uma obra de todo falhada e inexpressiva. As duas novelas, por sua vez, so ambas excelentes e considerveis, no obstante alguns defeitos fundamentais de idealizao e de construo, que sero indicados no decorrer destes artigos, com os quais voltamos pela terceira vez a tratar de um autor especialmente estimado e de uma obra calorosamente admirada por todos os seus companheiros de vida literria 9.
  Nos estudos anteriores, o meu objetivo foi interpretar o sentido geral da obra do Sr. Graciliano Ramos, procurando fixar os traos de personalidade do escritor e a projeo 
dela atravs da arte literria. Tinha imaginado discutir desta vez a significao poltica da sua obra, e com uma opinio
  GRACILIANO RAMOS - Caets. Rio de Janeiro, 1947. 
  GRACILIANO RAMOS - S. Bernardo. Rio de Janeiro, 1947. 
  GRACILIANO. RAMOS - Vidas Secas. Rio de Janeiro, 1947. 
  GRACILIANO RAMOS - Insnia. Rio de Janeiro, 1947.
No havia nessa poca ainda nenhum estudo de conjunto - 
hoje acontece com o to importante ensaio de Antonio Cndido 
- acerca da criao ficcionista de Graciliano Ramos. Este Autor, nos presentes captulos, foi o primeiro a quem coube faze-lo, no obstante em propores modestas, e nas condies possveis com referncia a 
um romancista ainda vivo, cuja obra a ningum seria dado ento saber se estaria ou no j concluda como um todo.
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contrria  que se acha estabelecida, no que me vejo impedido pelas circunstncias exteriores, pois no seria leal e correto abrir esse debate num momento que lhe  pouco oportuno, prestando-se a minha atitude a exploraes extraordinrias". Procuremos, ento, outro terreno para esses comentrios, a fim de que no redundem em simples repetio ou variao dos anteriores. Este terreno poder ser o da evoluo literria do Sr. Graciliano Ramos, vista melhor atravs de uma leitura de conjunto dos seus romances e novelas, fixada em cada um dos seus livros. Pois a verdade  que este ficcionista, bastante limitado, a certo respeito, nas 
suas vises, jogando com um ambiente social reduzido, e no muito vastos recursos de revelao psicolgica, conseguiu, no entanto, fazer de cada um dos seus livros uma obra independente, sempre com elementos particulares e caractersticas prprias, sem se repetir, sem transmitir nunca a sensao de que um deles est prolongando o outro atravs de 
aspectos semelhantes. Isso  um resultado da sua arte literria, da sua capacidade de utilizar, com o mximo proveito, todos os elementos de observao, inspirao, imaginao e cultura, de que dispe conscientemente.
  A primeira edio de Caets apareceu em 1933; o 
seu autor, nessa poca, era uma figura municipal, tendo vivido at a maturidade numa cidade do interior de Alagoas. No se tinha a a estria de um rapaz, de um jovem, pois ao public-lo j entrara o romancista na casa dos quarenta anos. Essa circunstncia explicar, talvez que, sendo
10 Este Autor projetara - e nisto estava interessado o prprio romancista -realizar um estudo de interpretao da obra de Graciliano Ramos sob o ponto de vista do marxismo, aproveitando a circunstncia de ter-se inscrito ele, dois anos antes, como membro do Partido Comunista. Todavia, isto se tornou impossvel, em realidade 
tica, porque no momento em que apareceram os seus livros em conjunto, e quando, conseqentemente, preparei este ensaio - julho de 1947 - os comunistas brasileiros estavam sendo objeto de uma perseguio policial zoologicamente feroz e brutal por parte do governo do marechal Dutra. Um governo que deve ficar caracterizado pelos intelectuais - e para vergonha e antema de quem nele ocupou cargos e posies - como o mais violento, o mais grosseiro e o mais desonesto 
de todos os governos republicanos.
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um livro falhado e sem valor, Caets nem sequer tenha deixado suspeitar o grande escritor que surgiria depois em S. Bernardo, Angstia e Vidas Secas. No havia nele as indecises, os erros, as perplexidades, os excessos, misturados, porm, a certas revelaes de talento, que nos livros 
de alguns estreantes nos levam a jogar certo no futuro deles. 
  No; no era este o caso de Caets. Tudo nas suas prprias pginas revelava segurana e estabilidade, mas de m qualidade. Um livro maciamente ruim. A vulgaridade do ambiente do romance - e todo ele se processa atravs de coisas reles, pequenas intrigas e conversinhas de uma cidade do interior parece ter contaminado a prpria arte do romancista, de modo que assunto e realizao permanecem no mesmo plano medocre. Logo na primeira pgina, na primeira cena, encontramos a vulgaridade de expresso daquele "e deu-lhe dois beijos no cachao", seguida mais adiante de outra, que escolhemos apenas entre os 
possveis e numerosos exemplares neste sentido:

  Que diabo! Se ela me preferisse ao marido, no fazia mau negcio. 
  E quando o velhote morresse, que aquele trambolho no podia durar, eu amarrava-me a ela, passava a scio da firma e engendrava filhos muito bonitos.
Estilo correto, o do Sr. Graciliano Ramos, desde este primeiro romance, mas ainda sem a justeza, o vigor e a expressividade que lhe so caractersticos. O ritmo das frases ainda se apresentava sem regularidade, s vezes saltitante, s vezes telegrfico, como se estivesse comprimido:
  Acharam-me aptico e murcho. D. Maria Jos perguntou, solcita, se as comidas me desagradavam. Maada. As comidas eram timas, respondi, mas o estmago e a cabea no me iam bem. O Dr. Liberato 
me indicou um remdio. Agradeci e recolhi-me.
  Por sua vez o enredo de Caets  comum e destitudo de interesse. Torna-se simplesmente montona aquela pretenso de Joo Valrio, aquele projeto de conquista amorosa, que nem se realiza, nem gera alguma ao romanesca. Arrastada  a ao, arrastados os dilogos. Alm disso, o processo do romance . de carter fotogrfico, com mais 
pitoresco do que dramaticidade; os personagens so tipos convencionais, que no se individualizam nem pelos seus atos nem pelos seus caracteres. Costuma-se dizer que este
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primeiro romance do Sr. Graciliano Ramos foi muito influenciado por Ea de Queirs. Ora, a no ser em algumas pilhrias, e na pgina final, que realmente parece ter sido inspirada nas ltimas pginas de A Ilustre Casa de Ramires, no vejo nitidamente as linhas dessa ligao. Parece-me que mais verdadeiro foi o Sr. Joo Gaspar Simes quando o aproximou de Camilo Castelo Branco, naturalmente de um 
Camilo Castelo Branco despojado do arcasmo e da linguagem artificiosa. Por que no me agradou nada este romance Caets? No quero ser categrico na minha opinio; e tomo a iniciativa de sugerir ao leitor que talvez ela tenha decorrido da circunstncia de s agora o haver lido, depois 
de conhecer toda a capacidade e toda a arte do autor de uma obra como Angstia.
  Apenas um ano depois de Caets, em 1934, aparecia 
S. Bernardo, e dir-se-ia que era o livro de um novo escritor, tal a diferena entre um e outro, quanto ao valor literrio e  significao humana. A no ser que o primeiro tenha sido escrito muitos anos antes do aparecimento, a evoluo to fundamente marcada no segundo, num insignificante espao de tempo,  inexplicvel,  um dos muitos mistrios da criao artstica. Isso seria assunto, alis, para 
uma pgina de depoimento ou interpretao, a ser escrita por algum dos companheiros que viveram em intimidade com o Sr. Graciliano Ramos na su' fase alagoana.
  No  pelo ambiente que o plano de concepo e de  
construo do romancista se amplia, engrandecido em S. Bernardo. O ambiente de Caets  uma pequena cidade do interior; o de S. Bernardo ainda  menor: uma fazenda. 
  Os personagens tambm no so nem mais numerosos,  nem mais significativos socialmente. Pelo contrrio: o mundo romanesco  mais reduzido e concentrado no segundo livro, o que lhe d um carter marcante e segurssimo de novela bem estruturada. A fazenda S. Bernardo transfigura-se num autntico microcosmo. As figuras apresentam humanidade, paixes, dramas, misrias, anseios de felicidade e quedas na 
irremedivel desgraa. O Sr. Graciliano Ramos, ao criar e movimentar personagens como Paulo Honrio e Madalena, parece ter encontrado, definitivamente, o seu plano de ficcionista: o do romance psicolgico. A sua especialidade no
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 a inveno de acontecimentos, nem mesmo o aproveitamento em extenso, com objetivos dramticos, de acontecimentos porventura observados ou vividos diretamente.
  Neste sentido,. o mundo romanesco do Sr. -Graciliano Ramos  pobre, limitado, deficiente. O que transmite vitalidade e beleza artstica aos seus romances no  o movimento exterior, mas a existncia interior dos personagens. 
  Os acontecimentos s tm significao pelos seus reflexos nas almas, nos caracteres, nos pensamentos. E isto constitui a forma superior da fico, tanto mais estimvel no Brasil quanto o nosso temperamento no se mostra muito propcio ao que ela exige de concentrao espiritual, densidade psicolgica e complexidade literria. Com S. Bernardo, o 
Sr. Graciliano Ramos apresentou a sua primeira obra de anlise psicolgica, de iluminao interior de personagens, na linha de um processo que daria em seguida todos os seus resultados em Angstia. Acompanhando os assuntos para esse terreno subjetivo, o estilo do romancista adquiriu, por 
sua vez, a propriedade, a elegncia e o vigor que fazem do Sr. Graciliano Ramos um dos escritores que melhor manejam atualmente a lngua portuguesa. As vezes, em certos trechos, ele me desagrada pela secura e dureza, como pela ausncia de vibrao e dinamismo, mas isto talvez decorra em grande parte daquela limitao de assuntos e de problemas, acima sugerida.
  O principal defeito de S. Bernardo j tem sido apontado mais de uma vez:  a inverossimilhana de Paulo Honrio como narrador,  o contraste entre o livro e seu imaginrio escritor, o que se j verificara em Caets. De certo modo, em 
todos os romances escritos na primeira pessoa, concede-se uma margem para a inverossimilhana. Contudo, em S. Bernardo ela  excessiva e inaceitvel. Uma novela de tanta densidade psicolgica, elaborada com tantos requintes de arte 
literria, no suporta o artifcio de ser apresentada como escrita por um personagem primrio, rstico, grosseiro, ordinrio, da espcie de Paulo Honrio. Mesmo com um narrador impessoal, alis, ainda subsistiria alguma inverossimilhana, pois aquele personagem, como aparece no romance, 
no podia ter a vida interior que lhe atribui o romancista. 
   a inverossimilhana que se verificar, embora sob outro aspecto, em Vidas Secas.
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  Nota-se a princpio uma certa hesitao na marcha do enredo de S. Bernardo. Os primeiros captulos se lanam em vrias direes, como se o prprio romancista no estivesse ainda no domnio da linha central do desenvolvimento dramtico. H mesmo alguns trechos que parecem enxertados, podendo figurar ou no no conjunto, indiferentemente, como 
o captulo VII, com a histria independente de seu Ribeiro. Como fico, rigorosamente, o livro s se afirma e define a partir do casamento de Paulo Honrio com Madalena. 
  E seu ncleo central, com efeito,  a existncia   desses dois seres, o pattico do no entendimento entre eles, o jogo de contraste e separao daquelas duas criaturas dentro de uma mesma casa. Atravs dessas situaes, o romancista desvenda e analisa o carter de Paulo Honrio, o que constitui a 
maior atrao de S. Bernardo. Tratado com uma sobriedade, que s vezes atinge o esquematismo, o assunto se apresenta, no entanto, muito rico em sugestes, cabendo ao leitor compreender e sentir o que est alm das palavras e dos episdios. Alis, o valor do livro se engrandece na proporo em 
que se aproxima do final. A meu ver, o seu ponto mais alto  o captulo XXXI no- suicdio de Madalena. A certo respeito, ele sintetiza toda a novela: no princpio, uma breve descrio da fazenda naquele momento; depois, uma cena de cime de Paulo Honrio e a reao de Madalena, em dilogos e aluses que resumem o drama de ambos; em seguida, 
a morte de Madalena. E que sutileza, que originalidade, que senso e gosto literrio do escritor na preparao e na apresentao do episdio! Ele no cometeu a banalidade de lanar em cena, objetivamente, o suicdio da mulher, mas por 
isso mesmo, porque o envolveu numa atmosfera de mistrio e de sombra,  que ele comove intensamente. Este captulo XXXI de S. Bernardo, sem dvida,  uma pequena obra-prima, que contrabalana os defeitos e deficincias que porventura possam ser apontados em toda a novela. Para encontrar pginas semelhantes na obra do Sr. Graciliano Ramos ser preciso busc-las em captulos culminantes de Angstia, como 
veremos a seguir.
  Em 1936, dois anos depois de S. Bernardo, aparecia 
Angstia, num momento, alis, em que o Sr. Graciliano Ramos se achava na cadeia, perseguido de maneira estpida e inexplicvel pela Polcia Poltica que preparava o ambiente 
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para a ditadura". No era ele naquela poca um 
homem de partido, mas apenas - e como ainda hoje nos 
seus livros de fico - um escritor independente, tendo a conscincia de sua arte como expresso de realidades humanas, honestamente observadas e superiormente reveladas. 
  Angstia, por sinal,  o menos "social" dos seus romances, o mais introspectivo, o mais impregnado de subjetivismo, o mais voltado para a vida interior dos personagens, a despeito de alguns aspectos que dizem respeito  organizao da sociedade. O ambiente no  mais uma fazenda ou uma pequena cidade do interior: o ambiente de Angstia  a capital de Alagoas, em parte o Rio de Janeiro, atravs das -reminiscncias de Lus da Silva. Simples referncias nominais, porm; pois o problema do espao, como o do tempo, no tem limitaes neste romance. Ele foi colocado num plano em que tanto o autor como o leitor fazem abstrao de locais e de horas. O seu centro vital  o processo psicolgico 
de um personagem, que vai da normalidade espiritual de um modesto burocrata at a exacerbao de um delrio de criminoso, cercado de problemas e sugestes de dramaticidade. 
  No obstante este centralizar da ao num s personagem, as situaes humanas e literrias se desdobram de tal maneira que logo identificamos esta obra como um autntico romance. Em S. Bernardo e Vidas Secas, novelas, a substncia e a forma esto concentradas numa nica direo, disposta para a revelao de um s drama ou episdio. Angstia, ao contrrio, desdobra-se em vrios episdios, que 
circulam o drama principal, ou com ele se cruzam em mltiplas direes, de modo que a ao se processa em diversos planos, dando-lhe a extenso e a amplitude de um romance. Ao lado de Lus da Silva, surgem Julio Tavares e a criada Vitria, que provocam rapidamente o nosso interesse 
como tipos humanos.
  Tal como j acontecera em Caets e S. Bernardo, o 
romance Angstia est escrito na primeira pessoa, com o personagem principal como narrador. Mas enquanto Joo (11 Viu-se preso e violentado Graciliano Ramos como objeto de especial perseguio do general Newton Cavalcanti, uma espcie de 
guarda de campo de concentrao nazi-fascista, em quem, todavia, apuseram no Brasil, como em alguns outros de igual feitio e mentalidade no Exrcito, Marinha e Aeronutica, os bordados das mais altas 
patentes militares).
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Valrio, um incapaz absoluto, e Paulo Honrio, um bandido rstico, no tm verossimilhana como imaginrios autores daqueles dois primeiros livros, Lus da Silva, no terceiro, em nada se choca com as boas regras do jogo literrio nessa debatida e complexa questo do personagem-narrador. 1E: 
certo que ele se classifica, logo na primeira pgina, como um pobre-diabo, mas toda a ao do romance, ao contrrio do que se observa quanto a Joo Valrio e Paulo Honrio, demonstra que existe adequao entre ele e a histria que nos oferece como protagonista. Alm disso, Angstia exigia 
realmente a narrao na primeira pessoa, enquanto S. Bernardo, a meu ver, se tomaria mais verossmil e melhor estruturado com uma narrao impessoal. Assim, uma certa desordem, que se observa em Angstia, com uma linha condutora em ziguezague, no  um defeito, mas um carter do livro. Defeito de tcnica, talvez, ser que a primeira parte se tenha alongado demais em prejuzo da segunda. De orientao, porm, nenhum defeito. Aquela desordem aparente  a conseqncia lgica e perfeita do estado de esprito do personagem-narrador, por ele prprio assim caracterizado:
  H nas minhas recordaes estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois, um esquecimento quase completo. As minhas 
aes surgem baralhadas e esmorecidas como se fossem de outra pessoa. Penso nelas com indiferena. Certos atos parecem inexplicveis. 
  At as feies das pessoas e os lugares por onde transitei perdem a nitidez.
  O enredo de Angstia no tem importncia ou  significao, nem  sobre o enredo que repousa o valor deste romance, como de qualquer outro do Sr. Graciliano Ramos. 
  Numa rua modesta, Lus da Silva apaixona-se por uma moa, Marina, que nada apresenta de especial ou extraordinrio. Ajustado j o casamento, aparece Julio Tavares, gordo, rico e cretino, que envolve Marina no comum processo de seduo, separando-a de Lus da Silva, tomando-a sua amante por algum tempo. Enredo simples, at banal, como se v. Contudo, o que principalmente valoriza Angstia  que sobre um enredo dessa espcie o Sr. Graciliano Ramos tenha realizado um dos mais apaixonantes e intensos 
romances da nossa literatura contempornea. De que se formou, ento, o romance? Da vida interior e da anlise psicolgica 
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de Lus da Silva. E no pode por isso ser resumido, 
nem mesmo apresentado ao leitor. Ser preciso l-lo por inteiro, e mais de uma vez, acompanhando com emoo aquela figura angustiada de Lus da Silva, no tumulto e desordem dos seus pensamentos, sentimentos, reminiscncias, intenes, projetos, delrios. Por detrs da aparente desordem, a mo do romancista rene, dispe, compe com a mestria de um demiurgo. Se tivesse de indicar dois trechos, 
como os pontos culminantes da arte literria do Sr. Graciliano Ramos neste livro, eles seriam os que se encontram s pginas 140-149 e 214-223 desta terceira edio.* O primeiro deles descreve o movimento da idia do crime a entrar e 
a instalar-se na cabea j perturbada de Lus da Silva. Dias antes, em casa, ele olhara um cano com a sensao de que aquele objeto era uma arma terrvel. Olhou-o com mais insistncia e pareceu-lhe que ` o cano se estirava ao p da parede, como corda". Agora, no trecho destacado, um amigo lhe traz de presente uma corda. E a viso dela comea a 
provocar em Lus da Silva reminiscncias de crimes, de enforcados, at fixar-se nele o projeto de assassinar Julio Tavares com esse instrumento. Este  um captulo magistral, em que se sentem como que as marchas e as voltas de um pensamento, conduzido por uma fora secreta e misteriosa para um ponto que, conscientemente, procura afastar com horror. Da por diante, Lus da Silva j no se pertence, nem se domina. V-se jogado cada vez mais para dentro de uma atmosfera de sombra e anormalidade, movimentando-se como um possesso, em estado de vertigem e de alucinao. Assim, num crescimento, ele chega ao delrio com que se encerra o romance. E este  o outro trecho que eu destacaria como um dos pontos culminantes de Angstia. Deve-se ainda assinalar que, dentro embora de um processo de romance universalmente utilizado, Angstia no se liga particularmente a qualquer modelo europeu ou norte-americano, sendo um livro brasileiro quanto ao esprito e  forma.
  Alis, o mais brasileiro dos livros do Sr. Graciliano Ramos  sem dvida a novela Vidas Secas, publicada em (Nota da Editora - Estes dois trechos se encontram s pgs. 133-136 e 208-217 da 15' ed. ilustrada de Angstia).
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1938. Revelaram-se nesta obra algumas das melhores qualidades do seu autor, ausentes no que escrevera antes. Antes, em S. Bernardo e Angstia, a sua atitude humana era quase simplesmente de sarcasmo e revolta egosta. Em Vidas Secas, ele se mostra mais humano, sentimental e compreensivo, acompanhando o pobre vaqueiro Fabiano e sua famlia com uma simpatia e uma compaixo indisfarveis. Alis, no 
ser significativo e explicativo a este respeito que Vidas Secas seja a sua primeira obra de fico em que a pessoa encarregada de narrar a histria no  #nu personagem, mas o prprio romancista. No ser isto um sinal de que antes deixava os personagens entregues  prpria sorte, enquanto agora se identifica com os desgraados nordestinos de Vidas 
Secas?
  Eis uma novidade desta obra quanto  forma: a narrativa na terceira pessoa, como o autor a movimentar diretamente os seres da sua criao. Contudo, tecnicamente, Vidas Secas apresenta dois defeitos considerveis. Um deles  que a novela, tendo sido construda em quadros, os seus 
captulos, assim independentes, no se articulam formalmente com bastante firmeza e segurana. Cada um deles  uma pea autnoma, vivendo por si mesma, com um valor literrio to indiscutvel, alis, que se poderia escolher qualquer um, conforme o gosto pessoal, para as antologias. O outro defeito  o excesso de introspeco em -personagens to primrios e rsticos, estando constituda quase toda a novela de monlogos interiores. A inverossimilhana, neste caso, no provm da substncia da novela, roas da tcnica. Se houvesse maior proporo entre episdios e monlogos, entre a 
vida exterior e a interior dos personagens, este problema da fico teria sido resolvido de maneira perfeita. Porque, no mais, nenhuma inverossimilhana, nenhum defeito fundamental ser encontrado em Vidas Secas. Tudo o que o romancista, nos monlogos interiores, atribui a Fabiano, sua mulher e seus filhos, so pensamentos e eflexes  altura do que lhes poderia ter ocorrido realmente. Eles pensam, imaginam e sentem o que seriam pessoalmente capazes de pensar, imaginar e sentir. O romancista caiu numa inverossimilhana quanto  tcnica de disposio dos monlogos, mas 
se salvou dessa falha no que diz respeito ao contedo deles. 
  Por outro lado, a falta de unidade formal, acima assinalada, no se verifica na parte do assunto. Na substncia, a novela
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apresenta uma perfeita unidade, uma completa harmonia interior. O drama do primeiro captulo repete-se no ltimo; e tudo o mais que se encontra entre eles constitui uma matria de ligao entre os dois episdios semelhantes.
  Alm de ser o mais humano e comovente dos livros de fico do Sr. Graciliano Ramos, Vidas Secas  o que contm maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que  spera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela esto ligados teluricamente. O que impulsiona os seres desta novela, o que lhes marca a fisionomia e os caracteres,  o fenmeno da seca. No primeiro captulo, Fabiano e a sua famlia so retirantes, em busca de um novo. pedao de terra. Alojam-se como servidores de uma fazenda, e a que vamos conhec-los atravs de alguns episdios e muitos monlogos. A cada figura da novela - Fabiano, Vitria, sua 
mulher, o menino mais velho e o menino mais novo - o 
romancista dedica um captulo, que  como que um retrato de caracterizao, em que o prprio personagem se apresenta ao leitor. Da famlia tambm faz parte a cachorra Baleia, e o captulo que lhe  dedicado se acha revestido de uma humanidade talvez maior que a dos seres humanos, sendo esta uma das pginas mais famosas do Sr. Graciliano Ramos. Em Vidas Secas, no entanto, nenhum captulo me 
agrada mais do que "Festa", em que, ao poder descritivo e  capacidade de visualizao, o ficcionista ajuntou uma sutileza de tons e de notas psicolgicas realmente admirvel; ou ainda "Inverno", quadro de uma famlia em noite de frio 
e misria. Por fim, tambm a nova fazenda  atingida pela seca; e Fabiano se decide a partir, numa outra etapa do seu destino de movimentar-se sempre como um judeu errante em busca de uma nunca atingida terra da promisso. 
  O final do livro  uma retirada, como o princpio fora uma chegada, dentro de uma fatalidade que o romancista sugere ao dizer que eles "dali se afastavam rpidos, como se algum os tangesse".
Parece-me que Vidas Secas representa ainda uma evoluo na obra do Sr. Graciliano Ramos quanto ao estilo e  qualidade estritamente literria. Em nenhum outro dos seus livros encontramos tanta beleza e tanta harmonia na construo verbal. E somente aqui este autor, de esprito to pouco potico,, consegue atingir s vezes um estado de 
poesia. Foi tambm em Vidas Secas que o Sr. Graciliano 
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Ramos pela primeira vez se libertou por inteiro de algumas quedas no mau gosto ou na vulgaridade de expresso, com que nos surpreende, to freqentemente, em S. Bernardo e at em Angstia. Afinal, se Angstia  a sua maior realizao como ficcionista, Vidas Secas  a obra que nos oferece 
toda a sua medida como escritor, juntamente com Infncia.

  O volume de contos Insnia, com exceo de duas ou 
trs peas, representa a parte fraca da obra do Sr. Graciliano Ramos, somente no comparvel a Caets pelas qualidades de estilo. Creio que quase todos estes contos so pginas de circunstncia, escritas para jornais e revistas, sem grandes cuidados. Rigorosamente, nenhum deles  um conto. 
"Insnia" e "O Relgio do Hospital" so dois monlogos magnficos, mas como classific-los ' na categoria de contos? 
  Do mesmo gnero  o captulo "Paulo", mas de qualidade inferior. Estes trs captulos, alis, so variaes sobre um mesmo tema. "Um Ladro', que provoca- a princpio um interesse apaixonante, decepciona em seguida pelo convencionalismo do desfecho. Peas como "A Priso de J. Carmo 
Gomes", "A Testemunha", "Cimes" e "Uma Visita", s 
desejaramos que nunca houvessem sido escritas; elas so literariamente indignas de qualquer escritor, ainda mais de um escritor da espcie do Sr. Graciliano Ramos. A meu ver, os 
captulos de mais significao e valor literrio deste volume, so "Dois Dedos" e "Minsk", sendo tambm aqueles que mais se aproximam do que h de particular e especfico no conto. Reparando bem, a verdade  que uma pea como "Minsk" salva todo um volume, vivendo por si mesma de maneira definitiva. Entre os captulos que so pequenas obras-primas, no sentido de perfeitas e completas, dentro da 
obra geral de ficcionista do Sr. Graciliano Ramos, a histria de "Minsk" bem merece ser includa ao lado da "Baleia" de Vidas Secas. Alis, o assunto de "Minsk"  tambm um bicho; e quem sabe se o Sr. Graciliano Ramos, a este respeito, no est sentimentalmente prximo do seu personagem Fabiano, que "vivia longe dos homens" e "s se dava bem com animais"?
  Com meia dzia de livros, a obra do Sr. Graciliano 
Ramos j avulta hoje como uma das mais expressivas e
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valiosas da literatura brasileira, a despeito da desproporo que existe entre a riqueza da sua vida interior e a insuficincia do seu material de observao, entre a sua arte de escrever e o seu pequeno mundo de fico.
  Julho de 1947.
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